Por Aluísio Azevedo (1884)
— Não senhor! Eu só cobrei os copos, que já estavam partidos antes do rolo.
— Que enorme ladroeira! insistia o Paiva, a sacudir a cabeça. – Deixa lá! aconselhou Amâncio, puxando-o para fora.
Precisava andar e tomar fresco. Aquele gabinete era um forno — sentia-se mal.
— É que não posso ver extorquir desta forma o dinheiro a ninguém! disse o Paiva indignado.
E principiou a fazer as contas pelo que se lembrava de ter vindo à mesa. Amâncio o puxou de novo:
— Deixa lá isso ,homem!
— Nada! Pelo menos hei de vingar-me aqui em alguma coisa!
O criado havia saído. Paiva Rocha principiou a derramar o resto das garrafas no açucareiro, a emporcalhar o damasco da cortina e a cuspir dentro das chávenas. Amâncio ria-se formalmente, mas, no íntimo aborrecido:
— Agora podemos ir! disse afinal o outro. — Ao menos deixo-lhe um prejuízo!
E ainda meteu no bolso um paliteiro e duas colheres.
– Lá na república, precisava-se daqueles objetos! acrescentou rindo. Já na rua, Amâncio reparou que a cabeça lhe estava muito pesada e queixou-se de suores frios. Paiva chamou um carro, e, uma vez dentro com o colega, mandou tocar par a Rua de Mata- Cavalos.
— Esqueceste aquilo de que falamos? perguntou em viagem ao companheiro.
Amâncio já não se lembrava.
Paiva respondeu, fazendo um sinal com os dedos .
— Ah! Quanto Queres?
— Dá cá uns cinqüenta ou sessenta, depois tos pagarei.
— Pois não! gaguejou Amâncio, passando-lhe três notas de vinte mil-réis.
CAPÍTULO IV
Amâncio chegou à república muito indisposto.
Quase que não dava conta dos quatro lances de escada, que a precediam.
Também foi só chegar e atirar-se à primeira cama, gemendo e resbunando ao peso de uma grande aflição. Estava mais branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo; respirava com dificuldade; a abrir a boca e a retorcer os olhos.
— Então! disse o Paiva, batendo-lhe no ombro. — Mal! respondeu Amâncio, sem levantar a cabeça, que deixara cair sobre o peito. E com um gesto pediu água.
— Isso passa! afiançou o colega, entregando-lhe o púcaro cheio. Estás é com um formidável pifão.
E riu-se.
— Eu quero vomitar! exclamou Vasconcelos, apressado pela agonia, e mal teve tempo de erguer o rosto.
— És um fracalhão! Ponderou o companheiro, amparando-o pela testa. — Que diabo! Quem não pode com o tempo não inventa modas!
— Amâncio não respondia: Os engulhos vinham-lhe uns sobre os outros.
— Ai! ai! gemia oprimido .
— Ora que tipo! disse o Paiva, atirando-o sobre os travesseiros. — Vê se consegues dormir! Isto não é nada!
E narrou um caso idêntico, que experimentara.
Amâncio sentia-se um pouco mais aliviado, continuava, porém, a suar frio; tinha a cabeça completamente ensopada e não dispunha de forças para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe com um entorpecimento pesado de sono. Pediu mais água. E, depois de a tomar , deu a entender que era preciso que o despissem e descalçassem .
Paiva entrou a tirar-lhe a roupa, safou-lhe com dificuldade as botinas, porque as meias estavam suadas.
Amâncio, muito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra banda, aiava sempre. Afinal sossegou, parecia adormecido; mas, ergueu-se logo, com ímpeto, e começou a vomitar de novo, sem dizer palavras.
— Que pifão! reconsiderava o colega, encarando-o com as mãos cruzadas atrás.
— Homem! Vê-se lhe dás um pouco de amônia! lembrou do fundo do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa.
Só então Amâncio percebeu que ali, a seis ou sete passos distante dele, estava um rapaz magro , muito amarelo, em ceroulas e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo preocupado, um grosso volume que tinha sobre o estômago. Parecia deveras ferrado no seu estudo, porque até aí não dera fé do que se lhe passava em derredor.
— Olha! disse ao Paiva.— Creio que está acolá, sobre a banca, por detrás do Comitê. É um frasquinho quadrado, com rolha de vidro.
Dito isto, recolheu-se de novo à leitura, como se nada houvesse sucedido.
Amâncio serenou de todo com algumas gotas de amoníaco em um copo d’água , e afinal pegou no sono profundamente.
Só acordou no dia seguinte, quando o sol já entrava pela única janela do quarto.
Sentia a boca amarga e o corpo moído. Assentou-se na cama e circunvagou em torno os olhos assombrados, com a estranheza de um doido ao recuperar o entendimento.
O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo sítio; agora, porém dormia, amortalhado a custo num insuficiente pedaço de chita vermelha.
Do lado oposto, no chão, sobre um lençol encardido e cheio de nódoas, a cabeça pousada num jogo de dicionários latinos, jazia o Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um colete de flanela. Mais adiante, em uma cama estreita de lona, viam-se dois moços, ressonando de costas um para o outro, com as nucas unidas, a disputarem silenciosamente o mesmo travesseiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.