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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

— É uma satúrnia ... e não comum, murmurou o alemão fisgando num pedaço de pita o novo espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.

—O senhor é viajante zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu terminada a operação.

O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:

— Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o senhor o soube? Viajante naturalista, sim senhor! Eu vejo que o senhor e muito instruído... Muito bem, muito bem! Muita instrução!

E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.

—Ah! este também e doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.

—Oh! Doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?

—Sim, senhor, respondeu com gravidade o próprio Cirino. — Ah! ... Ah! muito bem.

Pereira, porém, voltara à carga.

—Mas, como é que o senhor se chama?

—Meyer, respondeu o alemão, para o servir.

—Mala? perguntou o mineiro.

— Não, senhor, Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.

—Isto deve ser o mesmo que Mala na terra dele, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.

O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem-cerimônia alguma intrometeu-se na conversação.

—Este Mochu, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas, e com o negócio ganha coco grosso... Quanto a mim — Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animais no pasto.

—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o que acharem; há por aí muito resto de milho nos sabugos...

—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este alamão, que é um homem muito de bem.

— É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.

Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sinal gutural que ecoou em toda a sala.

—Ele o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo, sempre: Mochu, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira à-toa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Também a gente anda por estas estradas afora como se fosse alma do outro mundo a penar... algum currupira... ou boitatá ...

Cruzes!

—Pois, senhor Mala, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quiser uma rede...

—Muito obrigado, muito obrigado!... minha cama é canastra. Não se incomode...

—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira, esfregando as mãos de contente.

Prometia-lhe na verdade a companhia boas ocasiões de dar largas à

volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Corte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarela de grande força.

—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.

E abriu a porta para se retirar.

—Ui! exclamou ele olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia-noite... Com a breca, o Cruzeiro está virando de uma vez. . .

Cirino, que tornara a deitar-se, com presteza calçou as botas e tomou uns papeizinhos que de antemão preparara e pusera a um canto da mesa.

—Não faz mal, disse, já estou com tudo pronto e em tempo havemos de dar o remédio. Vá o senhor deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.

Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cirino, deu volta à casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.

Ficaram, pois, o alemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.

—O Mochu, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado? —Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?

—Pergunto se já pegou no sono?

—Pois, Juque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?

—Então não quer petiscar?

—Comer, não é?

—Esta visto.

—Oh! Se tivesse!... Pensava agora nisso...

—Pois eu estou manducando... Quer um bocadinho?

—Que é que você me da?

—Rapadura com farinha de milho... Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...

—Então, Juque, passe-me um pouco.

Levantou-se o ofertante com toda a boa vontade e às apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.

Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança mais que sóbria, que foi devorada com satisfação pelo bom do saxônio.

CAPÍTULO IX

O MEDICAMENTO

Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós esporo...

(Hoffmann, A Porta Entaipada).

Quem me poderá dizer por que me parece tão duro o leito?.. Por que passei esta noite que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de sossego?... Surge a verdade: em meu seio penetraram as agudas setas do amor.

(Ovídio, Elegia n).

(continua...)

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