Por José de Alencar (1878)
A causa dessa repulsão não a podia precisar; mas suspeitou que se referia a Hermano, Seria porque fora ele quem envolvera o amigo na existência da moça; ou era ao contrário por que não tivera força de aproximá-lo dela?
A verdadeira causa, nós a sabemos.
Era a indignação que Amália sentira contra o esposo infiel e que ressaltava sobre o amigo, como sobre tudo o mais que lhe pertencia.
— Já tive o prazer de ouvi-la hoje, disse o doutor apertando a mão de Amália.
— Passou por aqui?
— Estive na sua vizinhança.
Amália entendeu a alusão.
— Ah! exclamou com indiferença.
Quando a moça começou a cantar naquela manhã, Teixeira estava em casa de Hermano e conversavam os dois no gabinete. Às primeiras notas este levantou-se; esqueceu a presença do amigo e saindo à chácara aproximou-se da casa vizinha, resguardando-se com a folhagem do arvoredo.
Teixeira, que o acompanhara, sentou-se junto dele e escutou. Aquela vivacidade do amigo, tão alheio a tudo que não se prendia à sua antiga existência, e a emoção com que ele ouvia a Amália, o surpreenderam. Interrogou as suas recordações. Julieta cantava essa ária, o que explicava tudo.
Terminado o canto, Hermano voltou ao gabinete e continuou a conversa, sem a menor alusão ao incidente. Henrique de seu lado também absteve-se de qualquer observação, e mui de propósito.
Deixando o amigo, lembrou-se o doutor de fazer à noite uma visita à família Veiga; e no primeiro ensejo referiu a Amália todas as circunstâncias do que ele chamava um triunfo.
— Um triunfo artístico bem entendido, acrescentou sorrindo.
— Os outros não são para mim, observou Amália em um tom de modéstia desdenhosa, que tornava ambígua sua frase.
A moça conteve e dissimulou a alegria produzida pela confidência do doutor. Agora sabia que Hermano a tinha ouvido e que sua voz atraía aquele homem indiferente ao mundo. Esta certeza encheu-a de confiança
Desde esse dia não cantou mais a Lucia. Às vezes ensaiava uns prelúdios, como quem se preparasse, e de chofre passava a outra peça, que executava primorosamente.
Compreende-se bem o que devia ser Amália nesses dias, convencida como estava de que o seu encanto, o seu condão, estava na voz. Todos os esplendores de sua formosura, todas as seduções de sua pessoa, toda sua graça e gentileza, ela os transportou para a música e idealizou em arpejos e melodias.
Quem já lhe tivesse admirado a beleza a reconheceria nesse canto inspirado que era como uma transfusão de sua radiante imagem. Seus lábios sorriam num trinado, com a mesma garridice com que desabrochavam a sua rubra flor.
A moça já não duvidara de seu império. Ela sentia em torno de si, a envolvê-la incessante, a admiração de Hermano. A cada momento via ou adivinhava na espessura das árvores, na penumbra de uma janela, o olhar que a buscava com ansiedade, e a seguia infatigável.
Entretanto mostrava-se despercebida dessa contemplação. Se aparecia à varanda ou passeava no jardim, não dava o menor sinal de ocupar-se com a casa vizinha que antes a absorvia tão completamente. Saía agora mais vezes para ter o gosto de ver-se acompanhada de longe e respeitosamente; ou para tornar mais desejada a sua presença.
Amália não tinha cultivado a arte de fazer-se amar, que se chama faceirice; mas parece que é esse um dom natural da mulher. São as asas da borboleta, que nascem na estação própria, quando é tempo de voar.
As partidas do Sr. Veiga tinham continuado; menos brilhantes do que outrora, porque Amália já não as animava com sua alegria e espírito; mas sempre concorridas. D Felícia insista nessas recepções, com a esperança de distrair a filha.
Uma noite, Amália, que mostrava certa volubilidade nervosa, dirigia a miúdo os olhos para a porta, como se esperasse alguém. Eram oito horas. Henrique Teixeira entrou, acompanhado por um cavalheiro alto e elegante.
A moça estremeceu reconhecendo Hermano; entretanto tinha um pressentimento, mais do que isso, a certeza dessa visita. Ninguém lhe dissera coisa alguma; mas ela percebeu por certos antecedentes que o fato ia realizar-se enfim.
Hermano apresentou-se ele próprio a Amália, como um admirador de sua bela voz que o tinha por muitas vezes arrebatado.
— Já me ouviu cantar? Aonde? perguntou Amália simulando ironicamente uma surpresa.
— Não me conhece então? interrogou o cavalheiro por sua vez, pousando no semblante da moça um olhar comovido.
— Se nunca o vi!... observou a moça com a mesma estranheza.
— Nunca?
Ela cerrou as pálpebras corando; quando as ergueu de novo todo o segredo de sua alma estava nos seus olhos límpidos e no meigo sorriso que veio à flor dos lábios.
Depois disso falaram sobre mil nugas dessas que servem às conversas de sala. Eles bem sentiam a insignificância de suas palavras; mas achavam prazer nessa troca de futilidades que os retinha juntos, e dava-lhes pretexto para comunicarem-se pelo olhar e pelo gesto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.