Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

A moça proferiu esta palavra com aquele timbre sibilante que em certas ocasiões tomava sua voz, e que parecia o rangir do diamante no vidro. 

Cobria-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore. 

Não percebeu Lemos esse profundo confrangimento, atrapalhado como estava a tirar do bolso uma das folhas de papel selado que estendeu sobre a mesa, alisando-a com as palmas das mãos. Depois molhando a pena, apresentou-a à moça: 

- Uma ordenzinha! 

Aurélia sentou-se à mesa e traçou com uma letra miúda de talhe oblíquo algumas linhas. 

- Para que pede ele este dinheiro? Perguntou a menina enquanto escrevia. 

- Não me quis dizer; mas eu suspeito; e tratando-se de uma união, de que depende o seu futuro, Aurélia, não devo ocultar coisa alguma. 

- É um favor, que lhe agradeço. 

- Não tenho certeza; mas desconfio que é uma rapaziada. O nosso José Clemente fez um palácio para guardar os doidos, mas vieram os meus francesinhos e inventaram o tal Alcazar que é uma casa de fazer doidos; de modo que eles já não cabem na Praia Vermelha. 

Aurélia mordia a extremidade da caneta, cujo marfim escurecia entre os dois rocais de seus dentes de pérola. 

- Não importa! 

E assinou a ordem. 

No dia seguinte à hora aprazada estava o Lemos em casa do Seixas. 

O negociante tirou do bolso a seguinte folha de papel selado. 

- Temos que passar primeiro um recibozinho. 

- Em que termos? 

Depois do uma pequena discussão em que os escrúpulos de Seixas relutaram contra a imposição da necessidade, assinou o moço contrariado esta declaração: 

"Recebi do Ilmo. Sr. Antonio Joaquim Ramos a quantia de vinte mil cruzeiros como avanço do dote de cem mil cruzeiros pelo qual me obrigo a casar no prazo de três meses com a senhora que me for indicada pelo mesmo sr. Ramos; e para garantia empenho minha pessoa e minha honra." 

Depois de verificar que o recibo estava em regra, Lemos contou com destreza de um cambista o maço de notas que trazia e o entregou ao moço recolhendo uma das cédulas: 

- Dezenove mil novecentos e oitenta cruzeiros... com vinte de selo... 

Seixas recebeu o dinheiro com tristeza. 

- Maganão feliz!... 

Soltando a sua implicante risadinha, Lemos fez duas piruetas, deu três saltinhos, beliscou a coxa de seu interlocutor e desceu a escada como uma bola de borracha aos ricochetes. 

 

IX 

 

Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição. 

Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade. 

Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo. 

No dia seguinte à visita de Lemos, logo pela manhã, D. Camila procurou um pretexto para ir à alcova do filho. 

Venho falar-te de um negócio de família, Fernandinho. Há um moço, aqui mesmo desta rua, que tem paixão pela Nicota. Está começando a vida; mas já é dono de uma lojinha. Não quis decidir nada antes de tua chegada. 

D. Camila contou então ao filho os pormenores do inocente namoro; Fernando concordou com prazer no casamento. 

- Já era tempo, disse a boa senhora suspirando. Estava com tanto medo que a Nicota também fosse ficando para o canto, como a minha pobre Mariquinhas! 

- Coitada! Mas eu ainda tenho esperança de arranjar-lhe um bom partido, minha mãe. 

- Deus te ouça. Ah! Ia-me esquecendo. Então há de ser preciso tirar-lhe algum dinheiro da Caixa Econômica por conta do que ela tem para cuidar do enxoval. 

- Já... O moço ainda não a pediu. 

- Só espera licença de Nicota, e ela não quis dar, sem primeiro saber se era de teu gosto e meu. Hoje mesmo... 

- Está bem. Logo que eu possa, irei tirar o dinheiro: mas se precisa já de algum, tenho aqui. 

- Não; melhor é comprar tudo de uma vez. 

Fernando saiu contrariado. Com a vida que tinha, avultava sua despesa. O dinheiro que recebia mensalmente gastava-o com o hotel, o teatro, a galanteria, o jogo, as gorjetas, e mil outras verbas próprias de rapaz que luxa. No fim do ano, quando chegava a ocasião de saldar a conta do alfaiate, sapateiro, perfumista e da cocheira, não havia sobras. 

Recorreu ao dinheiro da Caixa Econômica e não teve escrúpulo de o fazer, desde que pontualmente continuou a entregar à mãe a mesada de Cr$ 150,00, esperando uma aragem da fortuna para restituir ao pecúlio, o que desfalcara. Mas em vez de restituição, foi entrando por ele de modo que muito havia se esgotara. 

Onde pois ia ele buscar o dinheiro que a mãe lhe pedira para o enxoval; e mais tarde o resto do quinhão da Nicota? 

Assinou Fernando o ponto na repartição, e como de costume, saiu para almoçar; depois do que dirigiu-se à casa do correspondente a quem ele incumbira de na sua ausência pagar a mensalidade à D. Camila e enviar-lhe algumas encomendas. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →