Por José de Alencar (1872)
A Pedra Bonita é uma rocha que se levanta sobre um cabeço de montanha como um gorro de granito. Daí, dessa atalaia das nuvens, goza-se uma vista soberba sobre o mar, e vê-se de perto o enorme cesto da Gávea, habitualmente cingido de vapores.
Como todos os belos sítios da Tijuca, a Pedra Bonita é muito freqüentada pelos filhos da loura Álbion, incansáveis exploradores desse belo arrabalde do rio de Janeiro. Contam que um inglês aí se perdera, ficando sobre o gigantesco pedestal de rocha, elevado à condição de estátua, durante três dias, sem comer nem beber. Foi-lhe o penedo o contrário do outeiro da Ilha dos Amores: mais fácil de subir que de descer.
Também contam que nessa pedra, ou em outra que demora na mesma altura, entre as nuvens, algumas senhoras tendo lá subido foram obrigadas, para descer, a tirar os balões. O vento engolfando-se nas armações, ameaçava arrebatá-las à terra, levando-as de uma vez ao céu, pelo caminho do mar.
Os ingleses herdaram dos jesuítas um sétimo ou oitavo sentido, que possuíam em alto grau aqueles mestres da vida: é o sentido da higiene. Por onde passou a poderosa companhia, foi deixando conventos nas situações melhores, tanto pela salubridade como pela formosura. O inglês foi dotado do mesmo faro do belo e do saudável. Chegando ao Rio de Janeiro, volve os olhos para a cinta de montanhas que cerca a cidade, e considera isso um sobrado natural que a Providência construiu por cima do escritório para alcova de dormir.
Pese embora ao nosso amor-próprio nacional, eles naturalizaram inglesa a nossa Tijuca; fizeram daquela serra onde campearam os tamoios, uma Escócia brasileira. O grito dos highlanders percorre as formosas encostas. Pelas grotas onde reboava primitivamente o brado selvagem da pocema, ouve-se agora repetido de vale em vale pela voz suave das amazonas o gracioso la-la-hi-ti.
Se quereis ver o que há de mais belo e encantador naquele arrebalde, procurai o conhecimento de algum filho da GrãBretanha. Ele conhece a Tijuca de uma à outra extremidade, desde a gruta mais funda até o pico mais alto. Sabe não só dos vários passeios, como do dia e da hora em que se deve apreciar cada um deles. Afinal, quando tiverdes visto toda a Tijuca já descoberta e explorada, o inglês inventará uma pedra ainda não conhecida e uma excursão pitoresca como a de subir à Gávea por um caminho de lagarto.
Ricardo vinha pensando que felizmente naquele dia escapara de encontrar-se com a Guida. Era este o quarto Domingo depois que a conhecera, e seria o primeiro em que não a visse. O advogado não daria a importância a esses encontros fortuitos se, além de serem eles contínuos, não se houvessem dado as circunstâncias especiais, que já conhecemos. Felicitava-se porém o moço muito cedo. Numa curva da estrada achou-se em face de numerosa cavalgata, que tomava-lhe a passagem. Guida, que vinha na frente em companhia de algumas senhoras, exclamara:
- Ali está a flor, Clarinha. Não é tão linda?
- Aonde?
- Ali, um arbusto. Não vê? Disse ela indicando o lugar com a haste do chicotinho.
- Vejo. Amarela...
- Cor de ouro.
Guida tinha parado, e todos os cavaleiros se gruparam de modo a ver o objeto que lhes excitava a curiosidade. Ricardo, havendo-se adiantado na esperança de passar, foi obrigado a demorar-se em frente do grupo.
- Onde vai a senhora, D. Guida?
Esta pergunta foi dirigida por um dos cavaleiros à moça, vendo-a impelir “Edgard” contra o barranco do caminho para aproximar-se do arbusto, que ficava cerca de duas braças ladeira abaixo.
- Já que nenhum dos senhores se lembrou de oferecer-me uma daquelas flores, que eu acho tão bonitas, vou eu mesma buscá-la.
- Não faça isto!
- É uma imprudência!
- Eu não consinto!
Com efeito havia temeridade no intendo da moça. Quem já foi à Pedra Bonita sabe quanto é abrupta aquela montanha; o caminho, bastante íngreme, atravessa as costas rudes, cortadas em rápido talude e profundamente sarjadas pelos sulcos das torrentes que descem do cimo da serra quando chove. Seria sumamente perigosa a descida por semelhantes barrancos, até mesmo para um animal solto.
Desprezando porém as advertências que lhe dirigiam suas amigas e companheiras, a moça fustigou o cavalo, que refugara. Castigado asperamente, “Edgard” descera alguns passos por um trilho, ou antes por um rego; mas, reconhecendo o perigo que havia em continuar aquela descida quase a pique, tomou rapidamente por outro rego que atravessava, e galgou o leito do caminho com grande esforço.
- Vai, Guimarães! Disse um dos cavaleiros.
- Por mim, não tinha dúvida. Mas não há cavalo capaz de fazer isto.
Ricardo que assistia à cena, de parte, esperando ocasião de passar, não perdeu as palavras que pronunciara o Guimarães, e sentiu despertar-se-lhe o zelo pelos brios do “Galgo”. Aos 27 anos, o homem é ordinariamente temerário. A vida não representa ainda a seus olhos um cabedal, mas uma simples aspiração.
O moço avançou.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.