Por José de Alencar (1861)
Miranda — Caíste no erro de todos os maridos. Não associaste completamente tua mulher à tua vida, não a interessaste nos teus projetos e sonhos do futuro... Não há nada que a mulher não compreenda pelo coração; nas cousas as mais áridas, elas acham o encanto que dá o amor e a imaginação. Tu gostas da caça, por exemplo. Se Clarinha partilhasse contigo, mesmo de longe, as tuas emoções e os teus prazeres, não se julgaria abandonada quando a deixas por este passatempo. O seu espírito te acompanharia.
Henrique — É noite!... Eu lhe peço... Retire-se!
Miranda — Quando estiveres mais calmo.
Henrique — Agora, perdoe-me, não o atendo.
Miranda — É agora que me deves ouvir!
Henrique — Deixe-me só!...
Miranda — Não!... Não posso deixar-te nesse estado.
Henrique — Pois bem, fique! Mas não me contenha... Há ocasiões em que o homem não se domina.
Miranda — Uma última vez, Henrique...
Henrique — É debalde... A minha resolução está tomada! (Henrique arma a espingarda. Augusto medita)
Miranda (lento) — Vou te revelar o segredo de um amigo. Também ele amava sua mulher, também ele cometera o mesmo erro. Recolhendo-se alta noite, entrou na sala no momento em que um homem que ele não pode conhecer se despedia de sua mulher e saltava pela janela.
Henrique — Que fez ele?...
Miranda (idem) — Chorou a sua felicidade perdida. Agarrou uma arma como agora fizeste... Uma menina... sua filha, balbuciou seu nome, e salvou-os a ambos!... Salvou-os da morte, mas que vida, Henrique! A sociedade, a reputação impôs a estas duas criaturas um suplício horrível! Viveram no mesmo teto, odiando-se ou desprezando-se. (Anima-se) Desprezando-se? Não!... Porque o marido amava a mulher culpada! E como nunca a amara... Amor odiento, paixão vergonhosa, que o rebaixava aos seus próprios olhos, Que tortura, Henrique!
Henrique — Não sucederia isto, se tivesse seguido o seu primeiro impulso!
Miranda — E quando ele visse essa mulher que julgou criminosa dar o exemplo da virtude a mais austera! Quando visse o heroísmo e a dignidade com que essa alma nobre suportou todas as afrontas; não estremecia lembrando-se que podia ter assassinado a inocente? Oh! Quantas vezes depois de a haver insultado vilmente, não estive quase lançando-me a seus pés, e pedindo-lhe perdão!...
Henrique — Que diz? O Senhor?
Miranda — Eu?... Disse eu?... Falava-te como esse amigo me falou... Ele duvidava!... Que provas tinha? Sua mulher guardava o silêncio, é verdade! Mas, não havia nisso algum mistério?... Demais também sentia-se culpado! Aquela primeira falta foi irreparável? Quem sabe se ela não é pura ainda e se não houve precipitação em cavar o abismo que nos... que os separa!... E agora... Henrique, julgas que seja impossível? (Isabel aparece do lado da cabana)
Henrique — Silêncio!... Não ouve? Ali por entre as árvores... 0 seu vestido!... Não é?
Miranda — Espera! Cuidas que apesar de tudo esse homem de quem te falei tinha o direito de matar sua mulher?... Onde vais?
Henrique — Não me siga, meu tio! Se me preza não se coloque entre mim e a minha honra.
Miranda — Não consentirei nunca, Henrique! (Henrique foge entre as árvores.Miranda corre a Isabel)
CENA XII
Isabel e Miranda, (depois Clarinha)
Isabel (dirige-se à cabana em voz baixa) — Clarinha!... (Na porta da cabana) Clarinha!...
Miranda (á meia voz) — Não se perca!... Seu marido, Clarinha.... (Ouve-se um tiro. Isabel cai nos braços de Miranda que a tem arrebatado) Isabel — Ah!...
Miranda — Minha mulher!...
Isabel — Ouvi a carta... Era preciso salvar..
Miranda — A quem?... A seu amante?...
Isabel — Por que não me deixou morrer! (Clarinha aparece)
Clarinha — Que foi isto? Ouvi um tiro!
Miranda — Nada! Henrique descarregou a espingarda e... e... ela assustou-se.
ATO QUARTO Em casa de Siqueira em Petrópolis. Sala interior.
CENA PRIMEIRA
Siqueira, Rita e Iaiá
(Iaiá brinca no jardim acompanhada de Rita. Siqueira aparece como quem vai a passeio)
Rita — A bênção?
Siqueira — Não me dirás o que há de novo nesta casa, desde ontem à noite?
Rita — Nada, não, Senhor. (A Iaiá) Tome a bênção a vovô.
Siqueira — Ora! Há aqui alguma cousa necessariamente. Clarinha e Henrique fogem um do outro. Bela não aparece; e Augusto, esse não diz palavra.
Rita — Nhanhã D. Clarinha está zangada com Senhor moço Henrique, porque ele ficou muito tempo caçando!
Siqueira — Arrufos de namorados! Bem, disso já sabia eu. E os outros?
Rita — Meu Senhor?... Esse já veio maçado ontem da cidade.
Siqueira — E tua Senhora?
Rita — Vosmecê não sabe que Sinhá não anda boa? Esta noite passou muito mal; não dormiu.
Siqueira — E foi ela só? Creio que ainda ninguém dormiu nesta casa. Toda a noite ouvi Augusto passear nesta sala. Clarinha às duas horas ainda estava no piano fazendo um concerto com os cães que ladravam desesperadamente; Henrique, esse deu-lhe a vontade de passear de madrugada com a chuva. Parece que estava morrendo de calor. Já voltaria?
Rita — Ainda não vi ele hoje, não Senhor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.