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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

CARLOTINHA - Não te zangues; eu te contarei tudo, mas custa tanto falar dessas coisas!

HENRIQUETA - Com aqueles que nos compreendem é um prazer bem doce.

CARLOTINHA - Olha, o meu segredo... Porém não sei como hei de começar isto!

HENRIQUETA - Começa pelo nome. Como ele se chama?

CARLOTINHA (confusa) - Alfredo.

HENRIQUETA - Este moço que teu mano nos apresentou?

CARLOTINHA - Sim. Todas as manhãs, faça bom ou mau tempo, passa por aqui ao meio-dia; quase nem olha para esta janela, donde eu o espero escondida entre as cortinas, ninguém nos vê, mas nós nos vemos.

HENRIQUETA - Depois?

CARLOTINHA - À noite vem visitar-nos, como tu sabes; todo o tempo conversa com mamãe, ou com mano enquanto tu e eu brincamos no piano. À hora do chá sentamo-nos juntos; ele diz que me viu de manhã, eu respondo que estava distraída e não o vi. Às vezes...

HENRIQUETA - Acaba, não tenhas vergonha. Eu também amo.

 - Pois sim. Às vezes nossas mãos se encontram sem querer; ele fica pálido, e eu

corro toda trêmula para junto de ti. Daí a pouco são dez horas, todos se retiram: então chego à janela e sigo-o com os olhos, até que desaparece no fim da rua.

HENRIQUETA - E é este todo o teu segredo?

CARLOTINHA - Todo.

HENRIQUETA - Parece-se com o meu: ver-se de longe, trocar um olhar, amar em silêncio. Há só uma diferença.

CARLOTINHA - Qual?

HENRIQUETA - Tu és feliz, porque és livre, enquanto eu...

CARLOTINHA - Tu és correspondida, Henriqueta; Mano Eduardo te ama!

HENRIQUETA - E Alfredo, não te ama?

CARLOTINHA - Não sei, tenho medo; há quatro dias que não o vejo. Levo a contar as horas.

HENRIQUETA - Donde procede esta mudança? Fizeste-lhe alguma coisa?

CARLOTINHA - Eu?... Se procuro adivinhar os seus pensamentos!

HENRIQUETA - Entretanto, deve haver um motivo...

CARLOTINHA - Tenho querido me recordar, e só acho este. No domingo veio passar a manhã aqui; eu o deixei um momento para te escrever e voltei logo. Quando chamei Pedro para levar-te a carta; ele levantou-se de repente, despediu-se de mamãe, cumprimentou-me friamente, e desde então não o tenho visto. Ficou zangado comigo por ter saído um momento de junto dele.

HENRIQUETA - Não faças caso, isso passa. Hoje mesmo ele virá arrependido pedir-te perdão. Mas, a propósito da carta que me escreveste domingo, eu trouxe-a mesmo para brigar contigo, travessa! (Tira a carta.)

CARLQTINHA - Por quê? Pela sobrescrita?

HENRIQUETA - Essa é uma das razões. Para que escreveste "Madame Azevedo?" Não sabes que essa idéia me mortifica?

 - Desculpa, foi um gracejo.

HENRIQUETA - Além disso, não tinhas outra pessoa por quem mandar a carta, senão ele?

CARLOTINHA - Ele quem? O Azevedo?

HENRIQUETA - Sim; foi ele que ma entregou.

CARLOTINHA - Mas não é possível; eu a mandei por Pedro; e recomendei-lhe que não a mostrasse a ninguém, mesmo por causa da sobrescrita!...

HENRIQUETA - Não compreendo, então, como foi parar nas mãos desse homem. Tive um desgosto... e um medo!... Tu falavas de Eduardo!

CARLOTINHA - Espera, vou perguntar a Pedro que quer dizer isto! (Na porta) Pedro!...

HENRIQUETA - Deixa, não vale a pena.

CARLOTINHA - Não, é muito mal feito.

CENA V

Os mesmos e PEDRO

PEDRO - Nhanhã chamou?

CARLOTINHA - Quero saber como é que a carta que eu lhe dei para Henriqueta foi parar em mão do Sr. Azevedo.

PEDRO - Ele me encontrou na rua, e tomou para entregar. 

CARLOTINHA - Não te disse que não queria que ninguém visse a sobrescrita?

PEDRO - Ele é noivo de sinhá Henriqueta: não faz mal.

HENRIQUETA - Está bom; não pensemos mais nisto.

CARLOTINHA - Não quero que outra vez suceda o mesmo. (A PEDRO) Entendeste?

PEDRO - Sim, nhanhã. Pedro sabe o que faz! (Batem palmas.) 

CARLOTINHA - Que quer dizer?

CENA VI

HENRIQUETA, CARLOTINIIA, AZEVEDO, PEDRO, no fundo

HENRIQUETA, - Há de ser ele.

CARLOTINHA - Alfredo! Ah! Se fosse...

HENRIQUETA Queres apostar?

CARLOTINHA - Ora, é o Azevedo. Eu logo vi!

AZEVEDO - Como passou, D. Carlotinha? D. Henriqueta?

CARLOTINHA - O senhor parece que adivinha, Sr. Azevedo?

AZEVEDO - Por quê?! Por encontrá-la hoje tão bela? Está realmente éblouissante!

CARLOTINHA - Faça-se de esquerdo! A minha beleza serve de pretexto para elogiar a de Henriqueta!

AZEVEDO - A senhora quer dizer o contrário...

CARLOTINHA - Quer dizer que o senhor adivinhou quem estava aqui hoje.

AZEVEDO - Quem?... Não vejo ninguém.

CARLOTINHA - Nem a sua noiva? Era esta palavra que o senhor queria ouvir!

AZEVEDO - Sim, era esta palavra que eu desejava ouvir dos seus lábios.

CARLOTINHA (baixo, a HENRIQUETA) - Que fátuo! (Alto) Vem, Henriqueta; vamos chamar mamãe para falar ao Sr. Azevedo.

AZEVEDO - Então, deixa-me só?

HENRIQUETA - Oh! Um homem como o senhor pode ficar só? Paris inteiro lhe fará companhia!

CARLOTINHA - Suponha que está no Boulevard dos Italianos. 

AZEVEDO - Não. Mas conversarei com esta flor; ela me dirá em perfumes, o que os lábios que a bafejaram recusaram dizer em palavras.

CARLOTINHA - Como está poético! Aquilo é contigo, Henriqueta.

HENRIQUETA - Comigo, não! É com quem lhe mandou a violeta! Vamos! Pois, Sr. Azevedo, nós o deixamos no seu colóquio amoroso.

CENA VII

AZEVEDO, PEDRO

(continua...)

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