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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Foi só quando o edifício iluminou-se e a orquestra derramou torrentes de harmonia, que Emília recolheu em si. Sem dúvida nesse momento ela deixou de ser artista para ser mulher. Vi-a algum tempo absorta e isolada em sua alma, no meio da turba de adoradores. 

De repente sobressaltou-se; como uma estrela, que se desnubla em noite límpida, começou a cintilar. A quadrilha a chamava. Ela atravessou a sala, semeando sorrisos e enlevos n'alma daquela multidão extática, e desapareceu. 

Fiquei onde estava, e sem ânimo de segui-la. 

Eram onze horas já. Duas vezes tinha-me dirigido à porta para me retirar, e duas vezes achara um pretexto para demorar-me. Emília passou pelo braço do Dr. Chaves. 

—Qual é a contradança que eu lhe dei? disse-me ela com a maior naturalidade. 

Essa palavra magoou-me ainda mais. Eu pensava que Emília reparasse na minha esquivança, e iludira-me. Ia desfazer o seu engano, quando ela atalhou-me: 

—Ah!... Foi a sexta... É esta! Depois voltou-se para seu cavalheiro: 

—O senhor permite?... 

Deixando o braço do deputado, tomou o meu. 

—Creio que a senhora enganou-se, D. Emília. —Parece-lhe?... acudiu sorrindo. 

—Decerto! Só um engano me podia dar este prazer. Eu não me animava a pedir-lhe uma contradança. 

—Pois eu creio que foi o senhor quem se enganou. Não lhe perguntei qual foi a quadrilha que me pediu, mas sim a que eu lhe dei... embora não me pedisse! —Ah! Perdão! —Eu devia, respondeu-me séria. Lembre-se! Era uma reparação. 

—Embora! Como me podia eu supor tão feliz! —Porquê! Por dançar uma contradança comigo? disse ela rindo. 

Meu Deus! O que é essa felicidade que os outros acham em cousas tão pequenas e eu... 

—E a senhora?... 

—E eu ainda não encontrei na minha vida. 

—Não diga isso, D. Emília! A senhora não é feliz? Tínhamos chegado ao terraço, onde as luzes, brilhando entre as grandes folhas das palmeiras imperiais agitadas pela brisa,. faziam sobre o pavimento uma ondulação constante de claros e sombras. 

Algumas flores de magnólia exalavam para nós o seu fresco perfume. 

—Não, não sou feliz; disse Emília, descaindo-lhe a fronte. Nada daquilo em que o mundo pensa que está a felicidade, nada me falta; e eu não a tenho; não sei achá-la onde todos a encontram a cada momento. As vezes, quantas!... sinto um quer que seja, uma ligeira emoção, como um sorriso que vem despontando em minha alma. 

talvez a felicidade, digo baixinho; e fico muda e extática para não perturbar dentro em mim esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente some-se tudo, como se um abismo se abrisse; procuro minha alma nesse vácuo imenso, e não a sinto! Emília falara maviosa e triste; nesse momento ela pôs os olhos em mim e sorriu. 

—Se isto fosse uma enfermidade, o senhor curava-me; mas não é. 

E quem sabe? Talvez seja! —Não é uma enfermidade, não; é outra cousa. 

—O quê? Diga! —Não será um sonho ainda não realizado?... Uma aspiração vaga e indefinida? —Pode ser! Não sei! respondeu-me com encantadora ingenuidade. 

Meu coração abriu-se de novo à doce esperança, que dele se partira. 

Depois desse baile, a casa de Duarte recebeu todos os domingos a sociedade que D. Matilde reunia habitualmente nas quintas-feiras. 

Encontrava-me pois com Emília dous dias na semana, além das visitas que algumas tardes fazia ao Rio Comprido.  

XI 

As vicissitudes de frieza e indiferença, com que Emília me tratava, não tinham nada que se parecesse com o jogo bem conhecido das moças loureiras, que desdenham quem as persegue e procuram quem as foge. Não havia regra nos seus caprichos. Quando ela queria vir a mim, vinha, sem afetação, francamente, estivesse eu perto ou longe, embebido a contemplá-la ou distraído ao braço de outra moça. 

Emília não tinha rivais, não me disputava a ninguém; dominava-me na soberania de sua beleza, e atraiame ou arredava-me a seu bel-prazer, com um senho apenas da sua graciosa majestade. 

Eu era para essa moça como um vaso onde ela guardava as essências de sua alma para mais tarde aspirarlhes o perfume. Quando chegavam as horas dessa afluência do coração, ela procurava-me para vazá-la em mim: a sua palavra ardente abundava então do lábio vívido. Outros dias chegava-se muda e absorta; parecia haver dentro dela uma grande solidão, onde seu espirito se perdia. 

—Diga-me alguma cousa! murmurava ela. Fale-me... Fale do céu, das nuvens, do mar, do que Deus criou de melhor neste mundo!... 

E eu falava; e ela bebia as minhas palavras, que lhe matavam a sede d'alma. 

Fora desses momentos, em que sua alma sentia'uma necessidade irresistível de expansão ou de absorção, ela parecia esquecer-me. 

Foi por este tempo que eu tomei uma grande resolução. Afagara sempre a idéia de ter uma pequena chácara onde me refugiasse às tardes, escapando ao burburinho da cidade. 

(continua...)

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