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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Então foi de paixão que ele fugiu?

— Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Há namorados que perseguem, e outros que fogem!

Amélia julgou prudente desviar a conversa daquele assunto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade já desvanecida.

CAPÍTULO  IX

Depois daquela noite Leopoldo viu Amélia duas ou três vezes; e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto, a mesma insistência de seu espírito para enxergar a formosura da donzela através de um prisma deforme e caricato. Nessas ocasiões ele sofria diante da moça a fascinação do horrível, como o poeta sofre muitas vezes a fascinação do belo em face de um objeto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: criava Quasímodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desaparecia de seus olhos, operava-se em seu espírito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repelia. Amélia ausente vingava Amélia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

— Este amor é um inferno, pensava ele; tem um vício orgânico. Há de viver de dores e lágrimas; há de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consunção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa?

— Servirei de pasto a este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; enquanto vivos, a presa das moléstias e das paixões próprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chamas.

Com tal disposição de espírito voltou ele dias depois à casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amélia.

Ali estava com efeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ela dançava com as costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou o rosto como se obedecesse a um impulso estranho, e encontrou o olhar ardente de Leopoldo.

A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto a aproximou da porta. Aquele olhar que a atraía ao mesmo tempo que a repelia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira figura da marca da contradança começava, e a distraiu de sua emoção.

Estava ela outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um calafrio; sem ver, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus lábios se abriam para dirigir-lhe a palavra:

Minha senhora, terei a honra de dançar com V. Exª.  a seguinte quadrilha...

Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fora impossível dizê-lo. O tom parecia mais afirmativo do que interrogativo, porém o olhar do mancebo esperava, se não exigia resposta.

A confusão da dança permitiu a Amélia esquivar-se, sem responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu lugar, ficou perplexa. Tinha ela se comprometido ou não a dançar a seguinte quadrilha com Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem dúvida o moço vira esse movimento e o tomara por um sinal de assentimento.

Quando um de seus inúmeros admiradores vinha pedir-lhe a próxima quadrilha, ela respondia hesitando que já tinha par; apenas o cavalheiro se afastava, arrependia-se de não o ter aceitado, rompendo assim o compromisso tácito; e ficava ansiosa por outro convite. Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.

Nesse jogo, muitas vezes repetido, passou o intervalo. O piano deu o sinal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amélia, e inclinando-se, sentiu no seu estremecer o braço tépido de Amélia. A moça não teve consciência do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a seu lugar. Recordava-se apenas de que seu par lhe falara por muito tempo, com a voz baixa, porém palpitante de emoção.

Assim fora. Passada a primeira confusão da quadrilhas Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d' alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubores, Amélia parecia absorvida e reconcentrada enquanto o moço falava. Dir-se-ia que ela não o ouvia.

— A senhora acredita, D. Amélia, na atração irresistível, que impele duas almas entre si, e as chama fatalmente a se unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força misteriosa, mas ainda não tinha chegado o momento de experimentá-la em mim, de sentir em meu ser este elo divino que prende as almas através do tempo e da matéria. Senti-o há vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a senhora se revelou ao meu coração.

Leopoldo referiu as emoções que sentira, na ocasião de seu primeiro encontro com Amélia; a impressão que ela deixara em seu espírito; e os sonhos em que se embalara sua imaginação nos dias seguintes.

(continua...)

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