Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro; decididamente quebrei com o meu passado: quebrei e era de razão; não era? tenho vergonha do que fui...
CLEMÊNCIA – Mário, tu nos assustas, que é que foste?
MÁRIO – Um vadio, o escândalo da sociedade, um traste sem préstimo; tenho vergonha... não é de razão? o que me abriu os olhos foi o sopro de um anjo.
BRAZ – Explica-te, relâmpago!
MÁRIO – Há uma hora que Irene me disse: “Juras amar-me e que me queres por esposa: em que te ocupas? qual o trabalho de que tirarás o pão para me sustentar?...” Olhei ao redor de mim e dentro de mim, por fora e por dentro achei-me no vácuo! Palavra de honra, tenho sido um vadio descomunal! não tenho? se são capazes digam em que me ocupo... digam... digam!...
BRAZ – Em trocar as pernas: é ocupação de muitos outros, como tu.
MÁRIO – Não as trocarei mais: Irene fez-me ver a verdade com a luz do amor.
BRAZ – Pois é raro que essa luz mostre assim as coisas.
MÁRIO – Virtude da fonte lucífera; as Irene também são raras o caso é que consumou-se a revolução; sou outro, porque vou ser outro, e não vendo hoje mesmo Hipogrifo, porque Irene mo proibiu.
BRAZ – Nisso ela errou: conservando Hipogrifo, ainda podes desencabrestar.
MÁRIO – Não tenha medo: quero estabelecer-me, trabalhar e enriquecer.
VIOLANTE – A resolução é ótima: que calculas ser?...
MÁRIO – Se eu pudesse, seria banqueiro; mas falta-me a matéria prima; não tenho riqueza... não tenho fundos...
BRAZ – Que asneira, Mário! para ser banqueiro basta o dinheiro dos outros.
MÁRIO – Quero um mister decente: arranjam-mo? vejam se mo arranjam, e cuidado comigo, que adoro os extremos; olhem, que sou capaz de ir quebrar pedras, ou de mostrar-me puxando uma carroça d’água.
BRAZ – E não te vexarias?
MÁRIO – Eu, vexar-me? chapéu desabado à cabeça, blusa a operário francês, calças grossas a ilhéu, sapatões ferrados a italiano, puxando o burro preso à carroça, erguerei orgulhoso a fronte ao passar diante das janelas de Irene, porque, vendo-me assim, Irene dirá: “É por mim!”
VIOLANTE – E nós? e o nosso vexame?
MÁRIO – Pois arranjem-me um mister mais decente: eu declaro que estou decidido, sou outro, porque vou ser outro, consumou-se a revolução.
BRAZ – Mas onde tens o capital para comprar dois burros pelo menos, a carroça e os barris?...
VIOLANTE – Para isso não te empresto dinheiro, não contes comigo por fim de contas.
MÁRIO – Nem eu preciso, vendo Hipogrifo: dois contos de reis... é querer.
CLEMÊNCIA – Nunca serás aguadeiro... seria um opróbrio...
MÁRIO – Opróbrio é ser vadio; arranjem-me ocupação mais decente e mais rendosa... concedo oito dias às vaidades de família...
CLEMÊNCIA – Papai trata de obter para ti um emprego público.
MÁRIO – Rejeito in limine, por duas razões: primeira, quero estar em oposição muito independente a todos os ministérios; segunda, um aguadeiro ganha mais do que os empregados públicos de escala superior.
BRAZ – Abaixo o aguadeiro! ofereço-te a administração duma pequena fazenda de café com cinqüenta escravos sob a condição de metade nos lucros.
CLEMÊNCIA – Excelente!
VIOLANTE – Que fazenda é essa, Braz? suponho que não será a minha.
MÁRIO – Também não aceito.
BRAZ – Então és incontestável.
MÁRIO – Não caio nessa; fora da cidade só casado com Irene. VOZES (Dentro) – Mário!... Mário! Mário!...
CENA VIII
BRAZ, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, MÁRIO e CASIMIRO
CASIMIRO – Mário, aí estão à porta dez ou doze cavaleiros teus amigos...
bradam por ti... não ouves?
VOZES (Dentro) – Mário! Mário!
MÁRIO – Passeio oficial de sportemen... parece extraordinário e singular em S.
Cristóvão... (Luta interior) tentação diabólica... eu tinha dado a minha palavra!
VOZES (Dentro) – Mário! Mário!
MÁRIO – Hipogrifo a brilhar... vou... não vou... (Vai e volta) CASIMIRO – Há de ir... deves cumprir a tua palavra...
MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro... consumou-se a revolução... não
vou!
VOZES (Dentro: batem com os açoites nas janelas) – Mário! mandrião! vem!
MÁRIO (Correndo à janela) – Relache par indisposition: Hipogrifo constipou-se.
FIM DO QUARTO ATO
ATO V
A mesma sala do ato quarto
CENA I
CLEMÊNCIA e BRAZ, que chega
BRAZ (Grande cumprimento) – É de mestra!... agora, aconteça o que acontecer, não vá pedir-me em casamento; porque se arrisca à negativa certa.
CLEMÊNCIA – Tão feia ou má sou eu?
BRAZ – Nem feia, nem má; é porém um demoninho de arteira.
CLEMÊNCIA – Veremos nos resultados do artifício. Aqui todos guardam segredo: lembre-se que anteontem se declarou do meu partido...
BRAZ – Bati bandeiras aos seus pés, estou rendido, hoje mil vezes mais.
CLEMÊNCIA – Eu o esperava ansiosa para assegurar-me da sua discrição...
BRAZ – Beijo-lhe as mãozinhas pela dúvida.
CLEMÊNCIA – Agora... desculpe-me... devo completar o meu toilette...
BRAZ – Bata as asas e voa já ao paraíso do espelho. (Vai-se Clemência)
CENA II
BRAZ e CASIMIRO
CASIMIRO – Braz... Braz... então?... falaste-lhe de novo?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.