Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
DEMÉTRIO – Por causa de alguns miseráveis centos de mil réis maltratas um amigo que por ti se tem comprometido em não sei quantas alhadas perigosas...
CINCINATO – Tu por mim nunca meteste prego sem estopa... tu... mas... ora esta!... que boa idéia!..
DEMÉTRIO – Empresta-me duzentos mil réis e me acharás pronto sempre a todos os sacrifícios da amizade; empresta-mos...
CINCINATO – Pois bem escuta, Prodígio: és capaz de quebrar louça hoje comigo?...
DEMÉTRIO – Sou: é experimentar.
CINCINATO – Não te empresto, dou-te já duzentos mil réis, e com eles ganha ou perde que pouco me importa; mas dez minutos antes da meia-noite a um sinal meu deixarás o jogo, receberás mais trezentos mil réis, e irás com uma bonita rapariga patuscar alguns dias fora da cidade, tendo para o resto desta noite hotel pago, e ceia a espera. Queres?
DEMÉTRIO – Que patifaria é essa?
CINCINATO – A rapariga é de pouco mais ou menos; não há receio de intervenção policial. Os duzentos mil réis já sob compromisso de honra; (Contando o dinheiro.) os trezentos mil réis na hora aprazada... queres?...
DEMÉTRIO – Mas... se não há risco de bulha com a polícia, dinheiro e moça bonita é ouro sobre azul... eu quero...
CINCINATO – E ainda mais uma rapariga de truz e por quem andas de queixo caído...
DEMÉTRIO – Aceito sem restrições: moça e dinheiro aceito.
CINCINATO – Toma, Prodígio; (Dá-lhe o dinheiro.) verás que a estralada é ainda melhor do que imaginas... a rapariga é Dionísia... segredo!
DEMÉTRIO – Oh!.. . será possível!...
CINCINATO – Facílimo: eu te explicarei tudo, e te darei as necessárias
instruções... agora vamos jogar... (Indo-se.)
DEMÉTRIO – É sublime!...mas explica-me...
CINCINATO – Temos tempo: vamos jogar? (Vão-se.)
CENA V
FÁBIO e ADRIANO, que entram.
FÁBIO – Aposto que se eu não chegasse, não deixavas Dionísia?...
ADRIANO – Hoje mesmo jurei não tornar a vê-la, e vim arrebatado cair a seus pés... esta mulher é a minha perdição... ah! se a visses e a ouvisses há pouco... é irresistível.
FÁBIO – Mas pareces aflito...
ADRIANO – Toca a hora de uma ação indigna, que repugna a minha consciência, e a que me arrasta o delírio da paixão; vou insultar publicamente minha mulher, dando a Dionísia casa e tratamento! É uma revolta contra a sociedade e contra Deus.
FÁBIO – Que puerilidade! até ontem exagerei as proporções e conseqüências do erro que vais cometer: porque era dever de amigo procurar impedi-lo; mas agora... digote a verdade; não praticas uma boa ação; o teu pecado porém é o mais comum dos pecados.
ADRIANO – E Helena?...
FÁBIO – Fará como tantas outras no seu caso: a princípio, lágrimas e desespero, logo depois, consolação nos teatros e bailes.
ADRIANO – Não! eu sinto que a minha traição será fatal a Helena! eu o sinto...
e ainda assim... Oh! basta o primeiro passo na ladeira escorregadia das paixões!... imprudente, o homem conta demais consigo... cedendo a capricho insensato, ousa uma vez levar aos lábios a taça do vício... e a embriaguez lhe anula a vontade... deprava-lhe os sentidos... e o escravo do demônio, embalde o clamor da consciência, vai de rojo caminho de opróbrio e de condenação!
FÁBIO – Eu conheço mais de cinqüenta maridos que rir-se-iam muito da tua ingenuidade!
ADRIANO – Fábio!
FÁBIO – Tua paixão por Dionísia é talvez um favor da Providência, porque te arrancará ao frenesi do jogo que te arruinou. Trabalharás, e, com o concurso da minha amizade, hás de reerguer o teu crédito abalado no comércio. Não torna a jogar: tens muito que despender com Dionísia...
ADRIANO – Tens razão; mas jogarei esta noite pela última vez, Meu Deus!... se
eu ganhasse muito hoje!
FÁBIO – Adriano, cuidado! (Sussurro dentro.)
ADRIANO – Pesa-me sobre o coração o depósito de seis contos de réis que amanhã não poderei restituir.
FÁBIO – Pela terceira vez te asseguro que o usurário me prometeu a espera de um mês... é negócio concluído...
ADRIANO – Meu amigo, tu me salvas... e nem pensas do que me salvas.
FÁBIO – Vou jogar... se absolutamente queres também fazê-lo, vem.
ADRIANO – Vamos... até a meia-noite... ah! se eu ganhasse muito!... (Vão-se.)
UMA VOZ (Dentro.) – Eu jogo com as cartas viradas... cem mil réis na dama!
CINCINATO (Dentro.) – O dote é provocador; mas eu prefiro ficar solteiro.
CENA VI
DIONÍSIA e GERTRUDES
DIONÍSIA – Coitado! adora-me, como um cãozinho à sua dona! se o outro fosse bonito assim!... o Cincinato é feio que espanta; mas tem a carteira tão cheia que faz gosto ver!
GERTRUDES – E além da carteira tem quarenta casas de sobrado de dois andares para cima...
DIONÍSIA – Diabo do feio! Hei de ser um incêndio que lhe queimará em quarenta dias os quarenta sobrados. Há de me pagar caro o sacrifício do belo Adriano.
GERTRUDES – Esse é que é bom rapaz; já é porém um crivo de dívidas, é uma esteira velha de pobreza.
DIONÍSIA – Pois olhe mamãe, por mim não foi, comigo pouco despendeu:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.