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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

A conversação de Salustiano, que às vezes era mesmo agradável, quase sempre perdia muito por sarcástica e venenosa. Não poupava nem a ironia, nem o epigrama. Ele olhava com paixão e interesse para Celina; com presunção e orgulho para Mariana; com indiferença para Anacleto.

O ancião o tratava com aparente civilidade, mas havia sensível frieza em suas maneiras.

Celina tinha os olhos embebidos em seu avô. Parecia estar vendo nele o seu defensor; e como que fazia de conta que Salustiano não se achava na sala.

Mariana, à força de habilidade, conseguia fazer desaparecer todas essas sombras, e derramava enchentes de luz de seu espírito no meio daquele grupo. Tratava Salustiano com indizível bondade e sustentava quase só todo peso da conversação. No entretanto era Mariana quem ali mais aborrecia o presumido mancebo.

Esta cena era a mesma que se representava todas as vezes em que Salustiano vinha visitar aquela família, o que a miúdo sucedia.

Havia, devia de haver portanto um misterioso motivo que desse àquele presunçoso mancebo a força necessária para se impor ali de modo tão insólito.

Bateram palmas.

– Agora é sem dúvida ela, disse Anacleto; vai recebê-la, Celina.

A menina dirigiu-se à porta.

– E quem é ela?... perguntou Salustiano.

– Oh, senhor! Descanse... respondeu Mariana; não se incomode... é apenas uma velha.

– Ainda bem, tornou Salustiano rindo. Fazia-se necessária aqui para estabelecer um contraste.

À porta da sala apareceram então uma velha e um moço, Irias e Cândido.

Salustiano com um sorriso insolente, e com uma luneta ainda mais insolente, observava os recém-chegados, que vieram tomar assento.

Conversou-se sobre o acontecimento da véspera.

Irias tinha tomado por sua conta fazer o elogio da “Bela Órfã”, e relatou o caso com entusiasmo e gratidão. Quando chegou ao fim, Salustiano dirigiu-se a Cândido, e perguntou:

– E o senhor o que fazia?...

– Ele?... queria lançar-se contra a canalha que me insultava, e o teria certamente feito se eu o não agarrasse com minhas mãos de ferro... porque eu sou velha... uma pobre mulher velha, disse Irias estendendo suas mãos compridas magras e nervosas; mas tenho força.

– E quando a senhora o não susteve mais, o que fez o senhor?...

– Quando ela me não susteve mais, disse Cândido, que havia corado até a raiz dos cabelos, já um anjo benéfico nos tinha salvado, e eu compreendi logo que para não ser indigno desse socorro deveria não descer até a canalha...

– Porque aliás... interrompeu com seu sorriso maligno Salustiano.

– Porque aliás, tornou Cândido ressentido-se, eu faria o que faz um homem de brio.

– E o que é que faz um homem de brio?...

– Pois o senhor não sabe? perguntou Cândido com acento muito significativo.

Salustiano corou por sua vez.

Anacleto interrompeu os dois mancebos.

– Ora pois, disse ele; agradeçamos ao céu esse insignificante acontecimento, já que nos trouxe a vossa visita. Desde muito que conheço a nossa boa vizinha, mas nunca tinha tido o prazer de encontrar-me com o senhor.

– É meu filho adotivo, respondeu Irias; esteve muito tempo fora da terra, e apenas há dois meses voltou à velha casinha onde foi criado.

– Mora, pois, em sua companhia?

– Sim... ocupa o nosso pobre sótão.

Celina olhou como admirada para Cândido, que fez um movimento de desagrado ouvindo as últimas palavras de Irias.

– Admiro-me de o não ter visto ainda, disse Mariana.

– Passa os dias fora de casa trabalhando, minha senhora, e quando se recolhe é já noite fechada.

– O senhor é operário?... perguntou Salustiano.

– Infelizmente não, respondeu Cândido, sou escrevente de advogado.

– Seja o que for, disse Anacleto, é um homem que trabalha, e por conseqüência digno da nossa amizade.

A conversação continuou por algum tempo ainda. Quando enfim a velha e o moço ergueram-se para sair, Anacleto disse:

– Senhora Irias, nós somos conhecidos velhos; quanto ao sr. Cândido, declaro que simpatizei muito com ele e o quero ver assiduamente nesta casa. Somos vizinhos... seremos bons amigos.

CAPÍTULO VII

UMA HORA DA VIDA PASSADA

CONCEDA-SE agora um olhar sobre o passado...

Era uma dessas belas noites de inverno dos países tropicais, onde, para vencer o frio, é de sobra o movimento e a lã.

A cidade do Rio de Janeiro estava em suas horas de poesia. A modesta fada do vale tinha sobre sua cabeça a lua cheia e graciosa que a inundava de luz; o orvalho noturno molhava-lhe as tranças; em redor dela animava-se a sua natureza opulenta e variada; e a seus pés dormia tranqüilo, ressonando apenas, seu mar de águas verde-claras, que simulava então um lago de pirilampos.

A natureza estava em festa. Os homens tinham também a sua. Ouvia-se o ruído de um sarau; mas não era no centro da alegre cidade, era no mais mimoso de seus arrabaldes.

O que havia de mais belo, de mais primoroso e rico na cidade do Rio de Janeiro, tanto pessoal como material, se achava reunido em uma elegante casa em Botafogo. Dava-se esplêndida festa; importa pouco conhecer a origem dela; o essencial é saber que havia uma festa.

(continua...)

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