Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Mas não o esqueçam, a rua começou a denominar-se do Ouvidor em 1780.
Mais dois anos passados, e fulgirá esplendíssimo e supermemorável o primeiro centenário da brilhante e famosa Rua do Ouvidor.
Que festa! quem viver em 1880 verá o que há de haver.
Em 1880 - o centenário!...
Preparai-vos, ó modistas, floristas, fotografistas dentistas, quinquilharistas, confeitarias, charutarias, livrarias, perfumarias, sapatarias, rouparias, alfaiates, hotéis, espelheiros, ourivesarias, fábricas de instrumentos óticos, acústicos, cirúrgicos, elétricos e as de luvas, e as de postiços, e de fundas, de indústria, comércio e artes, e as de lamparinas, luminárias, faróis, e os focos de luz e de civilização e vulcões de idéias que são as gazetas diárias e os armazéns de secos e molhados representantes legítimos da filosofia materialista, e a democrata, popularíssima e abençoada carne-seca no princípio da rua, e no fim Notre Dame de Paris, a fada misteriosa de três entradas e saídas e com labirintos, tentações e magias no vasto seio preparai-vos todos para a festa deslumbrante do centenário da Rua do Ouvidor!...
A festa é de nosso dever e de nossa honra!...
Preparai- vos!
O centenário é em 1880!...
Se eu tiver paciência, animação e confiança, proporei no fim destas Memórias que ainda têm muito que dar de si, o programa da grande festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor.
Vejam lá se me deixam ficar mal.
CAPÍTULO 6
Como se revela em burlesca proeza o primeiro ou mais antigo herói da Rua do Ouvidor; conta-se a história de duas ceias no fundo da taberna de Manoel Gago e como pela sua singular habilidade pregou famosa logração a três amigos o Belo Senhor, interessante celebridade do Rio de Janeiro, rematando-se esta tradição com o conselho um pouco profético dado por Agostinho Fuas, um dos logrados, ao Belo Senhor.
A rua que em 1780 recebeu a denominação do Ouvidor teve por seu primeiro herói em burlesca proeza o Belo Senhor.
Talvez que bem poucos dos meus leitores saibam quem foi o Belo Senhor; aliás a mais famosa personagem travessa e infelizmente muito pior do que travessa da cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século passado e que acabou ignorado morrendo não sei em que ano do princípio do atual.
O Belo Senhor chamava-se José Joaquim de...; nascera na cidade do Rio de Janeiro, onde seus pais (creio que pelo menos o pai era de Portugal) o fizeram receber limitada instrução acima da primária, mostrando-se ele, porém, muito inteligente, e sobretudo, maravilhoso em caligrafia.
Era de tanta beleza varonil no rosto como bem talhado de corpo; de espírito sutil, de gênio alegre e folgazão, dançando com o maior primor, cantando agradavelmente, merecera por tudo isso a desvanecedora alcunha de Belo Senhor, que por certo não foram os homens que lhe puseram.
Em sua juventude gozou o Belo Senhor a vida, esbanjando o tempo, e só ocupado de folguedos e de prazeres; ao menos, porém, isento de abusos e de atos criminosos que mancham o homem.
É nessa idade louçã, de alegrias e de devaneios, que se apresenta o mais antigo herói de travessura curiosa passada na Rua do Ouvidor.
O que passo a referir é tradição que ouvi não só a um, mas a alguns velhos que conheceram o Belo Senhor, e entre esses há um respeitável e estimadíssimo cirurgião que em idade muito avançada faleceu em 1877.
Nesta tradição pertencem-me os nomes dos tafuis amigos do Belo Senhor, a data precisa da segunda ceia, e os diálogos; porque não fui informado daqueles nomes, e nem da data que marquei para dar certa vida à tradição.
Tudo mais, isto é, a primeira e a segunda ceia, as fivelas e a casaca novas, e a surpresa causada pela presença da Rosinha, atriz da casa da ópera, devem considerar-se, e pelo menos eu reputo de tradição verdadeira.
E agora conto a proeza do Belo Senhor, sem mais prelúdios, nem cerimônias.
Companheiro assíduo dos mais elegantes e ricos tafuis do seu tempo, o Belo Senhor; que, muitas vezes, por seus dotes naturais, pelo seu espírito e por suas prendas ganhava, mais do que eles, agrados das senhoras nas reuniões e saraus, quase sempre baldo ao trunfo não os podia igualar no luxo dos vestidos sempre novos, e na magia do ouro, com que era posto em derrota na disputa de certos amores.
Uma noite, em 1783, ou pouco depois, em companhia de alguns desses tafuis, todos de boas e ricas famílias, o que não os impedia de render vassalagem à extravagância, que também é rainha da mocidade, ceava o Belo Senhor peixe frito com pimentões, chouriço de porco e rim de vaca assado e bebia vinho do Ponto, em saleta reservada do fundo da famosa taberna de Manoel Gago, sita à Rua do Ouvidor; esquina da Rua dos Latoeiros.
Ninguém se admire da escolha de uma taberna para uma ceia desses tafuis.
Ainda depois de estabelecidos os hotéis e em anos que chegavam ao termo da primeira metade do nosso estupendo século, não faltavam hóspedes muito sérios às saletas dos fundos de certas tabernas para cear sardinhas fritas com pimentões, e rim assado com o indispensável molho de pimenta de cheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.