Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — Então como é isso?...não lhe dás a mão, Leonina?...(Leonina dá a mão, e Henrique a beija com ardor). Bravo! Agora sim; jantarei como um frade, e vou até fazer uma saúde ao comendador Pereira. (Vão-se)
FIM DO TERCEIRO ATO
ATO IV
Jardim espaçoso e todo iluminado; ao fundo uma casa de campo de bela aparência, assobradada e com escadaria na frente: pelas janelas abertas vê-se brilhar as luzes; bancos de relva no jardim: à esquerda um caramanchão coberto de jasmins; perto dele um portão de grades de ferro.
CENA I
Há um baile de máscaras; música, e ruído de festa; os máscaras sobem e descem pela escadaria, e aparecem às janelas; dirigem-se uns aos outros. Dois Máscaras: o primeiro sentado em um banco, o segundo chega e pousa-lhe a mão no ombro.
Segundo Máscara — Belo máscara, porque deixaste o baile?...esperas ou descansas?...
Primeiro Máscara — A esperança é falaz como a mulher, e o descanso é o marido fidelíssimo da preguiça; aborreço-os a ambos: não espero, nem descanso.
Segundo Máscara — Dá-me então o segredo de tua vida...
Primeiro Máscara — Medito sempre e ainda mesmo quando trago uma máscara no rosto. Agora estava pensando na grande loucura de um baile de máscaras, e procurava determinar com certeza quem é a pessoa que o baile em que estamos, assinala, como tendo menos juízo.
Segundo Máscara — Isso não tem que ver, é o dono da casa.
Primeiro Máscara — Pois enganas-te: é o credor ou são os credores do festeiro, que provavelmente nunca mais tornarão a ver o cunho do dinheiro que emprestaram para as despesas da festa.
Segundo Máscara — És má língua, e te levantas contra o santo, e contra a esmola.
Primeiro Máscara — Esquecia-me dizer-te, que há meia hora perdi um conto de réis ao lansquenete! Parei na dama de copas, que dez vezes consecutivas deixouse cair no lado direito!...oh!...dama constante assim, é a primeira vez que encontro!
Segundo Máscara — E achas que deves desforrar-te do dono da casa?...
Primeiro Máscara — Desforrar-me?! Pronunciaste uma palavra de bom agouro:
voltemos ao baile, e na sala do jogo paremos de parceria na primeira carta...
Segundo Máscara — Menos se a carta for alguma dama, porque as damas...
CENA II
Os dois Máscaras, que logo se retiram: Fabiana, Filipa, Frederico e todos os mascarados.
Filipa — Fazem o martírio dos tolos; não é assim, belo máscara?...
Segundo Máscara — Ei-las comigo: imagens mundanas, fugité!...(Vai-se)
Primeiro Máscara — Três! Má conta: um sonha; dois suspiram; três conspiram!
(Vai-se)
Fabiana — Que horrível calor faz lá dentro! (Tiram as máscaras) Conversemos ao menos alguns instantes aqui no jardim.
Frederico — Parece-me ter achado Vossa Excelência um pouco pensativa?...sobreviria algum contratempo?...
Fabiana — Não; tudo vai bem. Um pouco antes das duas horas da noite, Dona Leonina sentirá a cabeça pesada e um sono irresistível, e acompanhar-me-á ao jardim para adormecer logo depois naquele caramanchão.
Filipa — Mas a explicação desse sono?
Fabiana — Está encerrada nesta caixinha de pastilhas. (Mostra-a)
Filipa — Oh! minha mãe...
Fabiana — O fim justifica os meios: além disso há de ser um sono de uma ou duas horas e nada mais.
Frederico — E dormirá reclinada sobre o meu seio...
Fabiana — E despertará com o movimento da carruagem. (À Filipa) Mas pela tua parte, que tens feito insigne medrosa?...
Filipa — Nada; o comendador acha-se possuído da mais acerba melancolia, e lança olhares fulminadores sobre o coronel Reinaldo, a quem supõe um rival preferido...
Fabiana — Melhor; tornar-se-á, portanto, mais verossímil uma fuga do que um rapto; e o coronel Reinaldo receberá daqui a pouco uma carta que o fará deixar o baile inesperadamente, dando-me ocasião de fazer sobre ele recair as primeiras suspeitas do atentado, enquanto o senhor Frederico se põe a salvo. (A Frederico) E a carruagem?...
Frederico — Já está no lugar determinado.
Fabiana — O cocheiro?...
Frederico — Respondo por ele.
Fabiana — Tudo corre à medida dos nossos desejos: até o velho roceiro teimou em não ficar para o baile.
Frederico — Coitado! Apenas acabou de jantar, deitou a correr para a cidade antes que aparecesse algum máscara: é um montanhês lá de Minas, que ainda tem medo de máscaras!
Filipa — Foi uma pena que não ficasse, tomá-lo-ia à minha conta a noite toda.
Fabiana — E eu digo que foi muito melhor que se tivesse ido embora. Senhor Frederico, que horas são?...
CENA III
Fabiana, Filipa, Frederico e Anastácio, vestido de dominó preto: os três põem as máscaras.
Anastácio — É meia-noite.
Filipa — Que voz! Pareceu-me ouvir o sino grande de S. Francisco de Paula dando horas.
Frederico — Belo máscara, quem és tu?...
Fabiana — Qual belo! Quem és tu, feio máscara!
Anastácio — Todos podem dizer o que foram; poucos os que são; nenhum o que há de vir a ser. O que fui, não vos importa; o que eu sou agora, acabastes de testemunhar; sou o cronômetro vivo que vos anuncia a hora que desejais saber; o que hei de ser ainda hoje...vê-lo-eis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.