Por Adolfo Caminha (1896)
— Em francês surmenage, isto é, excesso de trabalho mental... — explicou ainda uma vez, com um ar pedante, o literato.
As indiscretas e bruscas explicações do Dr. Condicional causaram má impressão ao visconde que perguntou baixinho a Furtado "se aquele moço era doido".
Os últimos incômodos do soberano interessavam mais à população fluminense que a alta ou baixa do câmbio ou que a queda estrondosa de um ministério em peso. Na Rua do Ouvidor, na Bolsa, nas secretarias de Estado, nas redações de jornais, todo o mundo comentava a diabetes do monarca, citando pareceres de alta valia, recordando feitos ilustres do segundo imperador, como se o homem já estivesse nas ânsias da morte, discutindo o caráter da enfermidade, que, para uns era diabetes, para outros lesão cardíaca, para outros ainda, esgotamento nervoso, e, finalmente, para um grupo de cortesãos, um ligeiro incômodo dos rins. E ninguém acertava com o verdadeiro mal que se apoderava lento e lento do imperial organismo. O governo, escrupuloso por demasia quando se tratava do chefe da nação, ficava mudo ante a curiosidade do povo, sem dar à Câmara o gostinho de lhe responder às sucessivas interpelações. Deputados e senadores erguiam a voz no seio do Parlamento, inquirindo sobre os "fatos que alarmavam o país inteiro" e quer o presidente do Conselho de Ministros, quer o Secretário do Império, diziam simples e laconicamente que "Sua Majestade estava em pleno gozo das suas prerrogativas e das suas faculdades". Mas o grande caso que os boatos enchiam as ruas, comunicando-se, num furor de incêndio, a todas as casas, a todos os arrabaldes e a todas as províncias. Falava-se mesmo na ida do imperador para a Tijuca e daí, se não melhorasse, para bordo de um vapor estrangeiro. Que ia fazer Sua Majestade na Tijuca - ele que só arredava o pé da Boa Vista para Petrópolis? O clima da Tijuca era quase o de Petrópolis: que ia ele fazer ao alto da Tijuca?
Multiplicavam-se as dúvidas e os comentários. Os barões e os viscondes, que se sentiam incomodados, apregoavam logo a sua diabetes, o seu enfraquecimento nervoso; e a palavra surmenage, até então pouco vulgarizada, tornou-se uma palavra à moda, um vocábulo chique para exprimir dor de cabeça, indisposição nervosa e até impurezas do sangue. Todo o Rio de Janeiro era uma grande surmenage...
O visconde de Santa Quitéria, ao cabo de meia hora, reconheceu que as notícias de que fora portador involuntário enchiam de tristeza os convidados de D. Branca, e, um pouco no ar, um pouquinho sem Saber o que dissesse, ele, o gentleman, o correto homem de salão, nunca supérfluo, nem amigo de contrariar o próximo, bandeou-se para Adelaide.
— V. Exa. tem gostado da Corte?
A esposa de Evaristo acordou da abstração em que mergulhara e respondeu timidamente, com um leve suspiro:
— Sim, senhor... muito!
— Ah, naturalmente! A Corte é hoje um dos centros mais aristocráticos do mundo. Nas províncias, em geral, não se faz idéia do que isto é... D. Branca interveio:
— Mas ainda não foi a Petrópolis, senhor visconde.
— Oh, então é preciso ir, é preciso fazer um passeiozinho à cidade dos reis... — tornou o banqueiro afetando um sorriso.
— Lá isso concordo — apoiou Valdevino Manhães, às voltas com o pincenê.
— Petrópolis é o complemento do Rio de Janeiro, ou antes, do Município neutro.
Evaristo quis dar um aparte; mas por prudência, engoliu a expressão. Ia desgostar o Santa Quitéria com uma alfinetada na monarquia. Para quê?
Já era tarde. O calor sufocava. Não se ouvia uma pisada na rua. Tudo quieto. Longe, para os lados da praia, tilintavam as campainhas dos bondes. Os dois rapazes do comércio tinham-se erguido para fumar um cigarro à janela. — "Como estava escura a noite!" murmurou um deles. O gás da sala dava uma luz preguiçosa, uma claridade de antecâmara. O piano, sempre aberto, esperava que alguém o fosse animar com as teclas muito alvas, muito novinhas.
O primeiro a retirar-se foi o visconde. Tinha cumprido o seu dever. Pedia licença...
Luís Furtado acompanhou-o à porta da rua, embaixo.
E aquela noite, que devia ser de festa e de regozijo pelo batizado da Julinha, acabou como todas as noites que não são de festa, nem de regozijo — tristemente, quase lugubremente.
Quando todos saíram, Luís Furtado abriu a boca num grande bocejo, que estrondeou na casa e acendeu um cigarro, cantarolando.
CAPÍTULO IV
— Com efeito! — exclamou, surpreendido. — Nem que se estivesse
esperando a volta de D. Sebastião... Ah!... Eu já estava resolvido a alugar o palacete do Friburgo!
— Agora, sim, senhor — disse Luís, batendo no ombro do amigo e rindo para Adelaide — agora vão dormir folgadamente na sua cama de casal, vão se regalar!
— Queres dizer, então, que passávamos as noites de olho aberto, no nosso belo quartinho? Estás muito enganado. Nunca dormi tanto, e a Adelaide melhor um pouco.
— Não segue-se, porém, que deixem de almoçar e de jantar conosco...
— Em primeiro lugar, um exame nos aposentos; depois, trataremos do almoço e do jantar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.