Por Adolfo Caminha (1894)
Tenho ainda na memória essa derradeira impressão que me ficou de Nova Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda, tão límpido e tão claro que se não viam as estrelas... O Jockey Club, embaixo, fazia um efeito surpreendente com a sua iluminação de mil cores rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto fantástico de quermesse noturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura, imóveis na calmaria da noite.
Em derredor a mudez solene da floresta acordada de instante a instante pelo eco da música cortando o ar calmo.
Perto do Clube tinha-se armado um grande estrado para a dança ao ar livre, sem teto, sem toldo, sob o luar.
Cruzavam-se os pares, num turbilhão impetuoso, ao som das valsas americanas e dos galopes à brasileira.
Nessa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma créole, Mile... já me não lembra o nome, um tipo ideal de Valquíria de olhos negros com um extraordinário brilho nas pupilas — microscópica, delgada, flexível, cintura extremamente fina, certo jeito adorável de pender a cabeça para os lados, num abandono irresistível... Toda de preto.
Dançamos uma quadrilha e ela convidou-me a passear no Prado.
Lá fomos, braço dado, eu muito circunspecto, teso dentro da minha farda de guarda-marinha, levado quase que maquinalmente por essa formosa dama de olhos negros e sedutores, arranjando a custo umas frases de efeito, que eu não teria coragem de reproduzir; ela, desenvolta e pequenina, muito leve na sua toilette escura, conduzindo-me naquela esplêndida promenade au clair de la lune, para onde... não sei eu...
Perguntou-me se as brasileiras eram bonitas e ricas, se no Brasil dançavase muito, e que tal nós tínhamos achado as americanas. Explicou-me então a diferença entre créoles e americanas propriamente ditas.
Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patrícias, "belas e ricas, como não há iguais no mundo..."
Paramos. Tínhamos andado seguramente dois quilômetros e não víamos agora senão a parte superior do Clube, por trás do arvoredo, toda iluminada ao longe, como uma cousa fantástica.
À proporção que nos afastávamos dos nossos companheiros a conversa tornava-se menos animada, e, por fim, já seguíamos calados, como dois sonâmbulos, no silêncio da noite enluarada...
Depois é que vimos a distância que nos separava do centro da festa.
Na volta encontramos outros pares em doce confabulação, como nós, longe do ruído.
Despedi-me para tomar o trem, e ela, a dama dos olhos negros, disse-me um good bye tão sentido e tão sugestivo que eu não tive leito senão perder o trem.
Good-bye! Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em boca de americana. Uma inglesa talvez que as não pronuncie com tanta suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. Good-bye... Há qualquer coisa de aveludado no timbre cantante com que elas, as misses da Nova Inglaterra, dizem a sua frase sacramental de despedida. O nosso adeus, aliás tão lacônico e singelo, não exprime tanto, não caracteriza tão bem esse estado d'alma que se denomina — saudade.
E, a propósito de — Good-bye, vem-me à memória um episódio de uma simplicidade primitiva e comovente que a minha indiscrição de observador tagarela não deixa calar.
Esqueçamos a rapariga de olhos negros e narremo-la em toda a sua verdade.
Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manuel..., o apelido de família não nos interessa. O jovem oficial de marinha, moço de bela aparência e excelente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafésconcertos de Nova Orleans. Até aqui nada mais natural. Ela vira-o uma vez diante de um bock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manuel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gozaram todas as delícias imagináveis, ele proibiu-a de andar nos cafés, ela proibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de comum acordo, sem que nunca houvesse entre eles a menor desavença.
— Leva-me para o Brasil, Manuel... (ela só o tratava por Manuel.) — Sim, filha, depois havemos de ver isso.
— 1 love you very much...
— Oh! yes... I think so...
Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, num quarto de hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sopa.
Um belo dia:
Ele — Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanhã.
Ela (surpreendida) — What do you say?!
Ele (trincando um rabanete) — É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manuel vai sulcando o golfo do México.
Ela (cruzando o talher) — Impossível! Por que já não me disseste?
— Para te poupar o desgosto.
— Oh! não, meu querido Manuel, é história, tu não vais amanhã...
— Assim é preciso. São coisas da vida.
— Não, não, meu amor (my love) tu não vais, porque eu não quero, do contrário faço escândalo, estás ouvindo?
— E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cair uma lágrima...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.