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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; história de ladrões... Era caso até para beijar os pés do marinheiro, porque nunca vira tanta coragem e tanto desinteresse!

D. Carolina buscava sempre ocasião de recordar o fato, narrando-o com todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendose em elogios à gente da marinha, gabando os homens do mar, “uns benfeitores da humanidade”.

Uma noite — só ao pensar tinha calafrios! — vinha de assistir ao Drama no alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a chave na porte, foi surpreendida por dois indivíduos, cuja fisionomia não pode reconhecer e que lhe pediram os anéis e dinheiro que porventura trouxesse.

Ela, com efeito, além de um anel de brilhante, lembrança dos bons tempos! e duas esmeraldas, levava cinqüenta mil-réis. Ora, já se passava de meia noite e a Rua da Misericórdia estava deserta que nem um cemitério. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedir socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela ousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duas lâminas de bom aço, tamanho de facões! Ah! mas Deus é grande! Nesse momento ia passando o vulto de um marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: — Socorro! Socorro! — Travou-se uma luta. O marujo saltava fugindo aos punhais e investindo logo, como uma fera, de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro, encheram-se as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a polícia chegou a tempo de prender os ladrões, completamente desarmados pelo bem-vindo marinheiro. — Qualquer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriu cerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da esquadra. E, como no sobradinho moravam praças de bordo, Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra d’honra como nunca vira tanta coragem num homem.

Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente — homem para quatro!

Bom-Crioulo começou a freqüentar o sobradinho onde iam outros marinheiros, e daí a grande amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra intenção: ela sabia que o negro não era homem para mulheres...

— Vamos, conta-m’lá essa viagem!

Tinham-se sentado, os três, numa sala de jantar, à luz do gás. D. Carolina estufada, muitíssimo gorda, cabeceando, sem fôlego, estava ansiosa por saber notícias. O negro, de boné no alto da cabeça, recostado familiarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se de vez em quando num clarão rubro e quente. Aleixo, imóvel numa cadeira, olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros — oleografias de carregação figurando assunto de alcova, duas em cada parede, colocadas simetricamente —, o guarda-louça quase vazio, e uma coleção de estampilhas de caixa de fósforo armada em leque. Tudo velho e incolor, poento e maltratado. Respirava-se uma atmosfera de sebo e cânfora, renovada por uma triste janelinha que abria para a espécie de área pertencente à loja.

Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: — Seis meses de estupidez! O Aleixo é que trouxera um pouquinho de alegria na volta... E desfiou a história do grumete.

— Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no sótão, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos à terra.

— Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona.

— Como quiser... Marinheiro é gente que dorme aos quatro, aos cinco... aos cinqüenta! Se houvesse uma caminha larga...

— Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor...

Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a BomCrioulo.

— Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais cantáridas!...

Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos.

CAPÍTULO V

Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual — certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ninguém ia, e que era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, o Aleixo e ... nada mais! Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava outra cousa.

(continua...)

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