Por Adolfo Caminha (1893)
— É o que você pensa, menina, disse D. Amélia. Essas pobres mulheres fazem um ror de sacrifícios... Sabe Deus quanto lhes custa uma noite de espetáculo! Acabam quase sempre miseráveis, coitadas, nalgum quarto de hotel, a esmolas.
Enquanto são moças ainda, ainda encontram quem lhe estenda a mão, porém, depois, morrem por aí em qualquer pocilga, sem um real para a mortalha. Tibis, menina, nem se lembre de tal coisa!
Maria, a um canto do sofá, pensava no estudante, perdida num labirinto de reflexões, com uma languidez no olhar vago. O Zuza preocupava-a como um sonho d’ouro. Começava a sentir o que nunca sentira por homem algum, certo desejo de ter um marido a quem pudesse entregar-se de corpo e alma, certa sentimentalidade sem causa positiva, uma como abstração do resto da humanidade. E quando D. Amélia, sentando-se ao piano, começou a tocar a Juanita, veio-lhe um vago e esquisito desejo de ir-se pelo mundo afora nos braços do “seu” Zuza, rodopiando numa valsa entontecedora até cansar... Via-se nos braços dele, arquejando ao compasso da música, quase sem tocar o chão, voando quase leve como um floco de algodão, como uma pena, como uma coisa ideal e aérea... E lembrava-se do padrinho. Ah! o padrinho queria tanto mal ao Zuza... Doravante ia agradar muito a João, tratá-lo com mais carinho, dar-lhe muitos cafunés, fazer-lhe todas as vontades, adulá-lo, a fim de que ele não ralhasse por causa do estudante. Que tola não ter escrito logo ao Zuza, àquele Zuza que era agora a quantidade constante de seus cálculos, a preocupação única de seu espírito, o seu alter ego!
Sim, porque de resto, ela não havia de ser nenhuma freira que ficasse por aí solteirona, sempre casta como uma vestal.
A Lídia tinha razão — a mulher fez-se para o homem e o homem para a mulher. Era sempre melhor aceitar a cartada que se lhe oferecia do que entregar-se aí a qualquer caixeiro de armarinho, a qualquer lojista usurário e safado. Ao menos o Zuza tinha dinheiro e posição, era um rapaz conceituado. Comparava-se com a Lídia e sentia-se outra, muito outra, noiva de um moço elegante, estimada, querida por todos. Ninguém se lembraria, depois, de sua origem humilde, todo o mundo a respeitaria como esposa do Sr. Dr. José de Souza Nunes! Começava mesmo a sentir uma grande afeição pelo Zuza.
As últimas notas do piano produziram-lhe uma comoçãozinha, uma ponta de saudade sincera, um arrepio na epiderme. E, levantando-se muito desconfiada, foi juntar-se às outras que palravam por quantas juntas tinham.
A voz de Campelinho timbrava muito fina e metálica, traduzindo todo um temperamento nervoso e irrequieto.
Acharam deliciosa a valsa da Juanita. Maria também deu o seu parecer: que era linda, que ia ensaiá-la. Falavam alto, numa intimidade de amigas velhas, sem pensar nas horas que iam passando rapidamente.
Fazia sombra na calçada. Pela janela aberta entrava uma poeira sutil que punha uma camada muito tênue e pardacenta no verniz gasto dos móveis. Vinha lá de dentro, de envolta com o fumaceiro da cozinha, um cheiro gorduroso e excitante de guisados.
Deram três horas.
— Jesus! fez D. Amélia erguendo-se admirada. Três horas! Vou-me chegando, meninas.
— Agora fique para jantar, solicitou D. Terezinha. Nada de cerimônia, o Janjão não tarda, é comida de pobre, mas sempre se passa...
— Ora fique, Jesus!
— Não Tetezinha, de minha alma, não posso, o Mendes me espera, aquilo é um estouvado. Vim somente para pedir um favorzinho, mas é segredo...
— Oh! filha...
Entraram as duas para a sala de jantar. A Mendes pediu água, e, dando estalinhos com a língua, acariciando a mão de D. Terezinha, disse muito baixo, quase ao ouvido, engrossando a voz, que precisava de dez mil-réis para pagar a costureira e vinha pedir-lhos até o fim do mês. A Teté não imaginava: tinha em casa o essencial para a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou não dinheiro... Tivesse paciência, sim? Pagava, sem falta, no fim do mês.
Disse que os meninos andavam descalços, que as despesas eram muito grandes, alegou o preço da carne... Um horror! Não se podia num tempo daquele comer com pouco dinheiro. Não sobrava nem para um vestido!
Também estava muito “quebrada”, disse D. Terezinha compungida. O Janjão tinha feito um ror de despesas naquele mês; dava graças a Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Pará, de rendas... Só ao velho Teixeira, um que emprestava dinheiro a juros, deviam duzentos mil-réis. Em todo caso sempre ia ver se arranjava pra cinco mil-réis. Era um instantinho.
Foi depressa à alcova, abriu com estrondo a gaveta da cômoda e daí a pouco voltou com uma nota de 5$000, muito velha e ruça, quase em frangalhos, que entregou à outra. Era só o que tinha para servi-la.
— Muito obrigada, minha santa, não sabe quanto lhe agradeço... No fim do mês, sem falta.
E guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da Rússia:
— Agora deixe-me ir.
— Por que não fica para jantar, insistiu D. Terezinha. O Janjão está chegando, mande um recadinho ao Dr. Mendes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.