Por Inglês de Sousa (1891)
As bananas estavam perdidas, mas era preciso salvar a honra do pirarucu fresco, que a caseira guardara para a refeição da tarde, fritando-o em fino azeite doce. Estava de tentar.
— Olhe, seu Chico, disse a mulata depois duma pausa; vuncê sabe que eu não gosto de homens de saia. Mas o vigarinho é um santo, lá isso ninguém me tira.
O professor voltou para a sala, sentou-se de novo à mesa, pegou na pena e começou a escrever:
“O escritor destas modestas e despretensiosas linhas...”
Mas largou a caneta, sem ânimo de prosseguir. Não queria elogiar o padre, não queria comprometer-se. Demais, estava com um ferro por causa da Maria Miquelina! E não se conformava facilmente com os olhos baixos e o falar melífluo daquele padre elegante e belo.
Havia um ano que o Chico Fidêncio se estabelecera em Silves, espantando os pacatos habitantes da vila com as suas teorias irreverentes e ousadas, fascinando-os, tinha presunção disso, com o seu verbo colorido e ardente, espicaçando-lhes a mole diferença com o aguilhão das suas críticas acerbas e dos seus sarcasmos ferinos, dominando-os pelo espírito desembaraçado de convenções e dos prejuízos da estreita vida de aldeia.
Era natural do Rio de Janeiro, carioca da gema. Aquilo, sim é que era terra! Cursara dois anos da antiga Escola Central. Não gostara das matemáticas, era mais amigo das ciências sociais, e se fora rico, teria ido estudar a S. Paulo, teria entrado para a troça do Varela, do Castro Alves, teria sido talvez um Álvares de Azevedo. Era, porém muito pobre. Um tio, que o ajudava, fartara-se de o aturar e pusera-o fora de casa, quando saíra reprovado em cálculo diferencial, ao segundo ano. Arranjaram-lhe um lugar de caixeiro de armarinho à Rua do Cano, mas não ficara no emprego mais de três meses. O patrão era um galego, burro como seiscentos galegos e malcriado como todos os da sua igualha. Chico Fidêncio não estivera para o aturar, e despedira-se da casa, passando-lhe uma descompostura descabelada. Um dos fregueses do armarinho, que tinha queixas do patrão, meteu-o de condutor num ônibus de carreira de S. Cristóvão. Era uma vida deliciosa, divertida, cheia de episódios interessante e que contribuíra muito para a educação do Chico Fidêncio. Ouvia tanta coisa! Estava a par da política toda, conhecia todos os homens notáveis, sabia de mil pormenores da sua vida pública e particular. Soubera da resolução do ministério na crise bancária de 1864, antes de publicada nos jornais, vira Christie furioso, por ocasião do conflito entre o Brasil e a Inglaterra, dera fogo ao José Liberato quando fora pela primeira vez a S. Cristóvão! Era uma vida deliciosa, toda a gente o conhecia e o cumprimentava, dava-lhe cigarros. Infelizmente fora obrigado a deixá-la por intrigas dum cocheiro, seu inimigo. Havia já dado um passo decisivo na vida... entrara para a maçonaria! E o primeiro benefício que tirara dessa acertada resolução fora conseguir um lugar de despenseiro a bordo do vapor Santa Cruz, da Companhia Brasileira do Norte. Mais tarde, numa das viagens deixar-se ficar no Pará, porque enjoava muito, não nascera para a vida do mar. Tinha feito amizade a bordo com um deputado geral, cuja família gostava das passas, nozes e figos secos, com que Chico a presenteava generosamente. Obtivera uma cadeira pública, num arrabalde de capital, e a regenera durante um ano inteiro. Mas rompera a questão religiosa, e o Chico Fidêncio, fiel aos seu homens de roupeta que ele importava de Roma. A nomeação era interina, e o presidente, um carola, que ouvia missa todos os domingos, quisera ser agradável a D. Antônio, e demitira o professor amigo do livreexame. Ficara então sem recursos. Recorrera à maçonaria, mas a maçonaria era impotente na administração daquele rato de sacristia que governava a província. Só podia obter um emprego no comércio, mas as suas aspirações não se davam com tal modo de vida. Demais, no comércio do Pará governavam os portugueses, e o Fidêncio, apesar de maçom enragé, nunca perdoara aos portugueses os desaforos que sofrera do dono do armarinho. Antes morrer de fome do que, no seu país, sujeitar-se novamente a ser mandado por um galego!
Enfim, Silves não pertencia ao Pará. O seu amigo Filipe do Ver-o-peso, um português excepcional, dissera-lhe que Silves era uma boa terra, não tinha professor que prestasse, e oferecera-lhe uma carta de recomendação para o seu correspondente Costa e Silva. Viera para tentar fortuna, e aqui soubera granjear muita consideração, graças à sua incontestável inteligência e aos conhecimentos que obtivera na sua acidentada existência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.