Por Domingos Olímpio (1903)
As noites infinitas, cruciantes, ele as passava encolhido perto de uma das janelas, o sono cortado pelos brados de alerta das sentinelas e contando as horas pelo sino do relógio da Matriz fronteira, até ao toque de alvorada, que lhe repercutia no coração, evocando a ânsia de tornar a ver Luzia com informações do processo, e talvez mensageira da liberdade.
Quase todos os dias ela passava pela casa do Promotor, sinceramente interessado na sorte de Alexandre, para se consolar com promessas. A última fora que, terminado o balanço dos gêneros armazenados, o inquérito seria rapidamente concluído.
Até então nada se havia adiantado para esclarecer a justiça. Permanecia a situação indecisa de presunções, meras suspeitas, indícios pouco veementes; e nenhuma prova de alcance jurídico fora colhida, além dos depoimentos dos soldados e de duas mulheres de má vida, a Romana e a Cangati. O fato de ser Alexandre depositário das chaves deixava de ter importância por se haver verificado que a fechadura da porta do armazém, antes tão corrente, estava perra, denotando a introdução de outra chave ou de qualquer instrumento de violência. Nada ocorrera, entretanto, para encaminhar a ação da polícia em direção a outro responsável, tendo sido infrutífera a vigilância, secretamente feita, em volta de Crapiúna.
E, nessa incerteza, dias de penar, noites mal dormidas sucederam-se: Alexandre estiolado na prisão, como planta silvestre, privado de ar e luz; Luzia nutrida de esperanças, que se adelgaçavam em quimera fugitiva.
Num dia desses, regressando a casa, ela respondeu com um gesto de desânimo aos olhares interrogativos da mãe e de Teresinha:
— Por ora... nada... amanhã... amanhã...
— Ah! – suspirou Teresinha – Se eu tivesse dois mil-réis!...
— Para quê? – inquiriu Luzia impacientada pelo estribilho, repetido toda a vez que se queixava da ineficácia das diligências para libertar Alexandre.
— Mortifica-me com essa cantiga... Já vendi os meus brincos de ouro; a vara de cordão, que havíamos reservado para um aperto, também passara a outras mãos... Nada mais temos, nem com que comprar um par de chinelas... Veja?... As minhas já estão com boca de sapo...
— A você, tornou Teresinha à puridade – nada devo ocultar - Eu queria os dois mil-réis para o respônsio...
— O respônsio?!...
— Sim, para comprar duas velas de libra... A Rosa não reza sem isso...
— Como há de ser? Onde irei achar tanto dinheiro!...
— Fosse eu você, Luzia, era só pedir por boca... — Que fazia?
E cravou na companheira, um prescrutador e sereno olhar, desses que traspassam o corpo e devassam a alma.
— Eu – balbuciou a moça confusa e dominada – Eu?... Não fazia nada... Foi uma asneira que me veio à cabeça... Não pode ser... não se faz a reza... E eu que tinha uma fé... É melhor tirar daí o juízo...
— E acredita que Rosa Veado é capaz de descobrir?...
— Ora... ora... ora!... É dito e feito... Tenho fé cega em Santo Antônio. Em casa de meu pai havia um deste tamaninho e milagroso como ele só. Quando se perdia alguma coisa, bastava prometer-lhe dois vinténs; a gente achava logo sem saber como. E, não se cumprindo a promessa, era castigo certo. De uma feita, desapareceu urna vaca leiteira. Meu pai, desconfiando que a houvessem furtado, chamou o pai Pedro, negro velho ladino e rastejador, e disse-lhe: "Não quero saber de histórias; vosmecê dá-me conta da vaca, ou come relho." Quando o velho falava assim, era aquela certeza. O negro coçou a cabeça, lastimou-se e saiu resmungando. Bateu capões de mato; esgravatou grotas e já estava desesperado, pensando no que lhe aconteceria, por voltar com as mãos abanando, quando se lembrou de prometer dois vinténs a Santo Antônio. Mal tinha feito a promessa, olhou para uma banda e o que havia de ver? A vaca pastando muito de seu, no lugar onde escondera o bezerro. Pedro pulou de contente, laçou a vaca, e partiu. Em caminho, entrou a pensar que o santo nada havia feito; ele é que estava banzando sem prestar atenção. Por que, então, lhe havia de dar o dinheiro?... Nisto , o animal deu um safanão; arrancou e deitou a boca no mundo: Que santo desconfiado!... Eu estava caçoando... Pago os dois vinténs e até mais!... A vaca voltou ao curral com os pés dela e foi o que valeu ao pai Pedro. Olhe, Luzia, tenho visto verdadeiros milagres...
— Amanhã – afirmou Luzia jubilosa como se lhe houvesse ocorrido o meio de resolver a dificuldade – amanhã arranjarei os dois mil-réis...
— Como? Que vai fazer?... Ah! Luzia, não se guie pela minha ruim cabeça ...
— Não se arreceie...
— Que é que vocês tanto conversam? – perguntou a velha.
— Nada, tia Zefinha – respondeu Teresinha – Bobagens de moças. Eu dizia que se pudéssemos pagar um doutô para soltar Alexandre...
— Não há, então, uma criatura que faça de graça essa caridade?...
— Qual!... Neste mundo tudo se move a peso de dinheiro... Doutô é como padre que não diz missa sem dinheiro... O saber é a foice e o machado deles...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.