Por Aluísio Azevedo (1880)
Em Nápoles, essa sociedade de ouropel florescia em 1846, com escandalosa aceitação, e, sustentando-se por necessidade, ia caminhando, podemos dizer, com regularidade, substituindo a nobreza pelo dinheiro e o dinheiro pela nobreza, e, na falta de algum destes agentes, socorrendo-se à formosura e à mocidade, na ausência dos quais ainda lançava mão, como último recurso, do talento de savoir-vivre e da arte de se meter em toda parte e de saber tirar partido de tudo.
Essa singularíssima e perigosa prole principiou do seguinte modo: - Um fidalgo arruinado, depois de atirar pela janela do desperdício o último centavo e, não podendo abdicar para sempre dos seus inveterados hábitos de opulência, procurou um burguês rico com o fim de, muito em segredo, nele se arrimar; o burguês, por outro lado, também precisava do auxílio da nobreza, para ter importância e subir; reunidos satisfaziam mutuamente o útil e o agradável. Fundiram-se.
Dessa combinação resultou — luz e movimento. O paralítico prestou olhos ao cego, e o cego pernas ao paralítico. E assim puderam ver e andar.
Ora, tudo aquilo que vê e anda, pode ir para diante e é suscetível de progresso.
Foi o que sucedeu — prosseguiram.
Pelo caminho foram atraindo com a luz da sua idéia os companheiros que andavam desnorteados e erradios à procura de um rumo.
A luz transformou-se em farol — os náufragos sociais engrossaram o grupo.
As mulheres, que se desacreditavam na alta sociedade, vinham, repelidas pelos competentes maridos e pelas competentes famílias, refugiar-se nessa roda; os filhinhos, ou melhor, as causas inocentes desta debandada, chegavam juntamente com as mães repelidas e com elas se educavam no mesmo meio.
Estas malfadadas crianças cresciam e, quando, por fraqueza ou por falta de pundonor, não fugiam envergonhadas, formavam a parte moça da Sociedade Flutuante. As vagas dos maridos eram razoavelmente preenchidas e jamais os filhos conheciam os verdadeiros pais.
Era mais uma roda de enjeitados do que uma roda social.
Compunha-se especialmente de destroços e de vergonhas — ali o que era um resto era um embrião — ou tinha já deixado de ser ou ainda não era; ninguém tinha um lugar definitivo, porque logo que chegasse a alcançá-lo desertava incontinenti.
Podia também aquilo ser considerado como um curso preparatório; habilitavam-se ali para poder galgar um lugar fora, e só na hipótese de nada encontrar exteriormente, recorriam à Sociedade Flutuante, como remédio extremo ou como último porto de salvação.
E em verdade é que, até certo ponto, achavam os fugitivos, na obscuridade dessa roda, abrigo seguro para as suas vergonhas e pesares. Esses eram os desesperançados.
Concluí-se que aquilo podia ser ou um túmulo, de qualquer modo seriam trevas, à semelhança do homem, cujos extremos são sempre sombras; podia ser um princípio ou um fim, porém nunca um meio, isto é, uma posição social.
Em público, todos odiavam essa sociedade; em particular muitos a procuravam e ninguém, que pública ou particularmente, queria, por gosto, ali ficar para sempre. Quem ali permanecia era por não obter absolutamente outro recurso.
Desse feito, pensava Maffei, e tinha para si que o casamento de Rosalina com um fidalgo arruinado abriria na nobreza uma brecha assaz larga para ele evadirse também. — Um fidalgo, quando empobrece, continua o burguês a pensar, em geral cai e com o choque abre na sua classe uma fenda por onde vai se introduzindo a burguesia.
Frágil e desgraçada coisa é a nobreza que precisa de dinheiro para não rachar.
Era com essa fenda que contava o antigo pescador. E contava muito bem, porque os homens, ao contrário dos gases, quanto mais pesados mais sobem.
A Sociedade Flutuante avultava de dia para dia; ultimamente, tornara-se até bastante conhecida e um tanto censurada, e, se bem que afetasse ótima aparência, a polícia tinha-a de olho.
Os seus mais perigosos detratores eram justamente os seus próprios adeptos — diziam mal uns dos outros e, a falta que este, com mil cuidados se esforçava por encobrir, aquele lha devassava pela sorrelfa.
Iam contudo vivendo e aliás regularmente.
O maior desejo das raparigas que lá caiam era casar fora dessa roda ou com alguém que ali estivesse por mera curiosidade, como simples amador. Se o logravam, saíam sem sequer voltar para trás a cabeça — desapareciam por uma vez, e faziam bem.
Quem mais gostava da Sociedade Flutuante eram os rapazes solteiros. — Os amores, como diz Dumas, são aí mais fáceis do que na alta sociedade e mais baratos do que na baixa.
Isto compreende-se com os amadores, com os que a freqüentavam por espírito de - curiosidade, espécie de sócios honorários, porque com os outros, isto é, para os sócios legítimos e efetivos, não era essa sociedade mais do que um recurso sofrível, em falta de outro melhor.
Estes eram os velhos ou parvos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.