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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Mas, se, para que o filho seja perfeito, é indispensável aquele conjunto de circunstâncias auxiliares, e, se o destino fisiológico do homem é procriar, aperfeiçoando a sua espécie, segue-se que — ter um segundo filho, com a mulher inutilizada pelo primeiro — é um crime perante as conveniências gerais da espécie, e é um crime perante os interesses particulares do segundo filho, que será injustamente lesado, que será privado das regalias e das vantagens naturais de seu irmão mais velho. Mas isto é a execrável lei dos vínculos e morgadios prevalecendo ainda fisiologicamente na família! O segundo filho, concebido já dentro do período da desilusão dos cônjuges, é um brutal atentado contra a natureza!

Entretanto, essa mesma mulher, agora inapta para despertar no pai de seu filho aquelas favoráveis ilusões que, aos olhos dele, faziam dela a mais desejável das mulheres, pode ainda acordar noutro homem, com quem nunca viveu na intimidade procriadora, os mesmos fortes desejos, o mesmo ardor, a mesma febre de posse carnal, que dantes levantara no primeiro. E este, que já não serve para encher de sonhos de amor a fantasia da mãe de seus filhos, e talvez nesse momento o objeto dos anelos de outra mulher, que o ronda enamorada, e nele vê o ente escolhido pelo seu desejo, o eleito da sua carne, o único colaborador que lhe convém para a sua missão reprodutora.

A sociedade, porém, não quer que se aproveitem esses dois indivíduos, ainda tão úteis à geração, e obriga-os a ficarem perniciosamente ao lado um do outro, contra todas as leis da natureza.

Ora se tudo aquilo que for contra a natureza é imoral e vicioso, o nosso casamento e, passada a crise do primeiro filho, nada menos do que uma condenável imoralidade.

CAPÍTULO VIII

O casamento um ato imoral! Ó meu Deus, a que triste conclusão me arrastaram os meus raciocínios!

Imoral o casamento! — logo, todo o homem ou toda a mulher que persiste ao lado um do outro, depois da amamentação do primeiro filho, é um ente imoral? E minha filha, minha pobre Palmira, teria de ficar eternamente solteira, privada dos seus direitos naturais de mulher, ou teria de ser uma criatura imoral, quer tomando para companheiro de vida um amante, quer aceitando um marido?...

Que horror!

Seria preferível conservá-la virgem, ou seria isto ainda maior atentado? Se o casamento é imoral porque é contra as leias da natureza, o celibato casto também o é pela mesma razão.

Conservá-la virgem! Mas conservá-la virgem seria matá-la por dentro, secando-lhe com a abstinência forçada a vida dos seus mais importantes órgãos, os órgãos direta e indiretamente empenhados na procriação! Mas uma mulher é toda ela, dos seus pequenos pés brancos e fracos, aos longos, cetinosos e tépidos cabelos, um simples aparelho de amor! Tirem-lhe o que foi formado para o conjunto do mister propagador, e o que fica?

Sim! por que tem ela os quadris mais amplos e volumosos que o homem? por que tem as coxas grossas, as mãos mimosas, e pele fina? por que tem peitos tão doces e tão macios? por que tem os lábios vermelhos e a boca livre e desembaraçada de barba, senão para dar beijos? e por que tem o rosto liso e rosado, senão para provocá-los e recebê-los? por que tem os olhos súplices, lamentosos, banhados em ternura e desejo? por que tem os cabelos tão compridos e tão perturbadores? e por que uma longa existência, de menina a octogenária, desde a primeira boneca ao último netinho, ela só viveu para a carícia e para o amor? e só teve uma função real e constante — amar, abraçar, beijar?

Não! minha filha não ficaria assim perdida para o seu verdadeiro destino de mulher!

Mas, se o casamento como a mancebia eram ambos imorais e não podiam proporcionar a felicidade que eu sonhava para ela, Palmira precisava de um novo cooperante genésico todas as vezes que tivesse de ser mãe. E isso, valha-me Deus! seria a mais completa e feia prostituição; seria perdê-la irremediavelmente para a moral e para a sociedade!

Oh! só agora, depois de pensar em tudo isto, é que vejo quanto fui casta e quanto fui boa; quanto fui sacrificada e quanto fui generosa! Que me não ouçam as mulheres fracas e vulgares; perder-se-iam com a minha dolorosa filosofia. Mas as fortes, as espartanas do lar doméstico, se algum dia souberem do segredo destas confissões, que se consolem com a minha heróica desgraça, porque só essas compreenderão as orgulhosas lágrimas que chorei.

Triste de mim, pobre mãe, cujo único ideal na vida era agora a inteira felicidade de minha filha, e acabava de compreender que semelhante felicidade era impossível, tanto no celibato casto, como no matrimônio, como na concubinagem, como na prostituição. E fora disso, nada havia a explorar.

Que desespero!

(continua...)

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