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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

— Ora, aí tem! Faça isto, concluiu ele, e veja se consegue esconder-lhe o diabo dos tais livros religiosos, que ela tem lido ultimamente.

E resmungou ainda, depois de novas pragas: — Pena é que se lhe não possa esconder também aquela barata velha, que é ainda pior do que todas as cartilhas da doutrina cristã!

VII

A mudança estava marcada para daí a quinze dias. Iriam refugiar-se na Tijuca, num casarão, que o Conselheiro possuía para essa bandas. Sobrado muito antigo e de aparência tristonha, todo enterrado no fundo de uma chácara, enorme e destratada, que em alguns pontos até aprecia mato virgem. Janelas quase quadradas; paredes denegridas pela chuva e pelo tempo; nas grades da escadaria principal heras e parasitas grimpavam livremente; as trapoerabas cobriam os degraus e alastravam por toda a parte; e lá no alto, à beira desdentada do telhado, habitava uma república de andorinhas.

Para chegar à casa, tinha-se de atravessar uma longa e tenebrosa alameda de mangueiras, que começava logo no portão da entrada e se ia estendendo por ali acima lúgrebe como um caminho de cemitério. Era triste aquilo com os seus altos muros de pedra e cal, pesados, cobertos de limo, e transbordantes de copas de árvores velhas. O casarão, olhado pelas costas ou pelo franco esquerdo, deixava-se ver em toda a sua grosseira imponência, porque dava esses lados para a rua, fazendo esquina com as suas próprias paredes. Metia aflição entrar lá; um pavoroso silêncio de igreja abandonada enchia os enormes quartos nus e enxovalhados de pó; um ar frio e encanado, como o ar de corredores de claustro, enregelava e oprimia o coração naqueles longos aposentos sem vida. Tudo aquilo transpirava cheiro de velhice, cheiro de moléstia; sentia-se a friagem da morte e a fedentina úmida das catacumbas.

O Conselheiro, porém, mandou correr uma limpeza geral na casa; fez ir para lá os móveis e objetos necessários; e, uma bela tarde, meteu-se afinal num landeau com a filha e mais a velha Camila e abandonaram Botafogo.

Foram com o carro fechado até certa altura do caminho, porque Magdá, de tão incomodada que passara a noite da véspera, não tivera ânimo de por outra roupa e apenas enfiara um sobretudo de casimira e agasalhara a cabeça e o pescoço com uma saída de baile.

Chegaram pouco antes do crepúsculo. O sol acabara de retirar-se, mas a terra ainda palpitava na luz. As aves iam-se chegando aos seus penates; toda a natureza se aninhava para dormir; só as vadias das cigarras continuavam espertas, a cantar, fazendo sobressair o seu interminável lá menor dentre os pacatos bocejos da mata que se espreguiçava ali mesmo, a dois passos da casa, tranqüila e submissa somo um animal doméstico. Magdá sentiu-se ternamente impressionada pelo taciturno aspecto do casarão que, lá naquelas alturas, se lhe afigurava um velho mosteiro ignorado. A circunstância da hora também contribuiu para isso; aquela hora sem dono, que não pertence ao dia nem à noite — era dela; chamou-a a si, como se recolhesse um enjeitado, e tomou-lhe carinho. Era o momento predileto para as suas concentrações e para seus êxtases: em tudo descobria a essa hora o carpir de uma saudade; cada moita de verdura ou cada grupo de árvores tinha para a filha do Conselheiro suspiros e queixumes de amor. Parecia-lhe a terra, nesse lamentoso e supremo instante em que o sol morre, se vestia de luto e chorava a perda do esposo que além se afogava, em pleno horizonte, atirando-lhe de longe os seus últimos beijos de fogo. Magdá ouvia então os abafados soluços da viúva e sentia-lhe o frio orvalhar do pranto.

— Bem, minha filha, vamos para cima, que já cai sereno.

Ela havia escolhido para seus aposentos uma sala e dois cômodos do andar superior. O quarto da cama era quadrado, muito singelo, uma verdadeira cela, em que o inseparável crucifixo de marfim assentava ao ponto de impressionar; tinha uma só janela, essa mesma gradeada de ferro e sem vista, porque ficava justamente de fronte de uma grande pedreira em exploração. O Conselheiro teve de contrariar a filha para dar a estas salas um pouco de conforto e elegância.

— Para que? dizia ela, não é preciso! em qualquer parte a gente vive e morre...

Como estava transformada! Ainda assim notava-se-lhe nas maneiras a mesma correção fidalga e nos gestos a fina escolha e apurada sobriedade, que dantes a distinguiam tanto entre as suas amigas. D. Camila foi também para o andar de cima, fazendo-se acompanhar por uma corte de santos de várias espécies, tamanhos e virtudes. Além dos escravos, levaram apenas uma criada branca, para tratar de Magdá.

Instalados, o Conselheiro tomou um homem para arranjar o jardim e ocupou os seus negros na reparação da chácara, acompanhando ele próprio o serviço, na esperança de despertar igual desejo no ânimo da filha.

(continua...)

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