Por Machado de Assis (1858)
(1) Senado chamo eu em todo este livro ao que naquele tempo tinha o simples título de Câmara. A mercê de se chamar Senado foi feita à Câmara do Rio de Janeiro por provisão de 11 de março de 1748, segundo monsenhor Pizarro (Memórias Históricas, tom. VII, p. 159). Segundo o Dr. Haddock Lobo (Tombo das Terras Municipais, tom. 1, p. 39) foi essa provisão datada de 11 de março de 1757. Vê-se que os dous autores combinam no dia e no mês. Para o nosso caso, não vale a pena examinar se foi efetivamente em 1757, se em 1748. Apesar de só ter obtido aquela mercê no meado do século XVIII, a Câmara do Rio de Janeiro já anteriormente recebera a denominação de Senado em provisão regia datada de 1712. Mais. No século anterior, em 1667, num auto de mediação nas terras do concelho, por mandado do ouvidor-geral Manuel Dias Raposo, deu-se à Câmara do Rio de Janeiro o título de Senado. (Veja Tombo das Terras Municipais, tom. 1, p. 88). Finalmente, Lisboa (Anais, tom. III, p. 323) traz uma carta da Câmara ao prelado Almada, com a data de 1659, que é a mesma da ação do poema, e escrita anteriormente ao episódio da devassa, a qual carta começa assim: "Neste Senado se fez por parte do povo..." Usava pois a Câmara, ainda que não legalmente, do título que lhe dou.
(2) Mais de uma vez tenho lido e ouvido que a cidade do Rio de Janeiro nada tem de airosa e garbosa, ao menos na parte primitiva, a muitos respeitos inferior aos arrabaldes. Não me oponho a este juizo; mas eu não conheço as belas cidades estrangeiras, e depois, falo da minha terra natal, e a terra natal, mas que seja uma aldeia, é sempre o paraíso do mundo. Em compensação do que não lhe deram ainda os homens, possui ela o muito que lhe deu a natureza, a sua magnífica baía, as montanhas e colinas, que a cercam, e o seu céu de esplêndido azul. Acresce que nesta dedicatória comparo eu o que é hoje ao que era a cidade em 1569, diferença, na verdade, enorme.
(3) Tomé Correia de Alvarenga, alcaide-mor do Rio de Janeiro e natural desta cidade, exercia interinamente o cargo de governador por não ter ainda chegado da Bahia o governador efetivo Lourenço de Brito Correia , como tudo fora ordenado na carta régia de 27 de março de 1657.
(4) Ocorreu esta revolta em novembro de 1660. Era então governador Salvador Correia de Sá e Benevides; mas tendo partido para São Paulo, a fim de visitar as minas, ficara no governo Tomé de Alvarenga. A revolta foi muito séria, como se pode ver do citado Lisboa (Anais, tom. IV, no princ.). Tomé de Alvarenga refugiara-se no convento de S. Bento; foi dali arrancado e metido na fortaleza de Santa Cruz.
(5) Ouvidor geral era o seu título; chamo-lhe simplesmente ouvidor por liberdade e conveniência poética.
(6) 0 Rev. Dr. Manuel de Sousa Almada, presbítero do hábito de S. Pedro, foi nomeado prelado administrador por provisão de 12 de dezembro de 1658, e tomou posse no mesmo ano em que se passa a ação do poema, 1659.
(7) Duas vezes alude Chateaubriand à emigração das cegonhas da Grécia para a África. Uma, no Itinerário, parte I, e diz assim: "Vi, quando estávamos no alto da colina do Museu, formarem-se em bando as Cegonhas e abrirem vôo para a África. Fazem elas há dois mil anos esta mesma viagem; vivem livres e felizes na cidade de Sólon como na cidade dos eunucos gregos". Nos Mártires, canto XV, põe na boca de Demódoco estas palavras (trad. de F. Elísio): "Cada ano erguem seu vôo, essas cegonhas, De abas do Ilisso e areias de Cirene, E aos campos de Ereteu cada ano voltam. Quantas vezes não acham erma a casa Que florente ficou, quando partiram! Quantas o mesmo tecto em vão buscaram Onde uso tinham de lavrar seus ninhos!" Nada há tão deveras melancólico como esse contraste do homem com toda a mais natureza. Muita vez, subindo a alguma das eminências da nossa cidade, lançando os olhos do corpo a essa vasta aglomeração de obras que a civilização criou e perfez, volvo os da alma a quatro séculos antes, quando uma sociedade semibárbara dominava as margens do golfo e as terras interiores. Nenhum vestígio há já dela; nenhum vestígio há de haver da nossa, depois que volverem outros séculos; mas o sol que os alumiou e nos alumia é o mesmo e toda a natureza parece indiferente às nossas obras caducas.
CANTO II
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.