Por Aluísio Azevedo (1884)
Atravessei a porta da rua, subi o primeiro lance de escadas, olhando para todos os lados. Não encontrei sinal de vida; aquilo parecia uma casa habitada por espectros; um silêncio de igreja deserta enchia os corredores; meus passos ecoavam ali, como se eu caminhasse dentro de uma catacumba e à proporção que me adiantava e subia, mais e mais avultavam as sombras e o silêncio.
Era quase noite quando cheguei finalmente à porta indicada pelo misterioso confidente de Malta.
Bati a primeira e a segunda vez; à terceira abriu-se a porta e vi defronte de mim um homem enorme, todo calvo e de longas barbas ruivas.
“É agora!” - pensei num arrepio.
E levei instintivamente a mão ao peito.
XII
- Ué, ué, catu! - gritei ao homem das barbas loiras.
Ele grogolejou imediatamente alguma coisa, que tanto podia ser a frase inglesa apontada pela carta do Malta, como podia ser um simples espirro.
Em seguida virou-me as costas e pôs-se a andar para o interior da casa.
Acompanhei-o.
Acompanhei-o, não sem o meu bocadinho de sobressalto, porque a cara do tal sujeito não era das que mais inspiram confiança.
Antes pelo contrário, na impassibilidade córnea do seu rosto havia alguma cousa de funambulesco e uma expressão dura de velha ironia cozida em genebra e calda de tabaco.
“Quem diabo seria aquele homem?” - ia eu a pensar. - “Quem diabo seria aquele silencioso monstro de seis pés de altura, que me surgia defronte dos olhos, como se eu estivesse num sonho?...”
E as mais estranhas considerações principiaram a dançar em volta de meu cérebro.
Afigurava-se-me que o sujeito era nada menos do que um gato, encantado, vivendo dos ratos que apanhasse naqueles quartos desertos, e, à noite, miando a sua tristeza pelos telhados da vizinhança.
Sim, que ele tinha olhos de gato. Bem o notei ao fitá-los.
Olhos verdes, redondos, com a pupila muito sensível e transformável à mais subtil alteração da luz.
À proporção que eu o contemplava pelas costas, mais me ia penetrando de tão extravagante convicção. Afinal já não era um gato o que eu supunha ver, mas sim um tigre, um verdadeiro tigre disfarçado em homem.
Tanto assim que, na ocasião em que ele se voltou para me dizer: “É aqui”, recuei dous passos e estive a perder os sentidos.
Então o monstro pôs-se a rir.
- Pois ele ri? - interroguei, mais pasmado do que se o visse trepar de gatinhas pela parede. - Ele ri? O monstro!...
Este, como se adivinhasse o meu espanto, adiantou-se para mim e ferrou-me os seus dous olhos de onça.
- Ah! - gemi, sentindo faltarem-me as pernas. - Estou aqui, estou nas garras do bicho!
Mas o meu estado de ansiedade durou apenas alguns segundos, porque o sujeito, estendendo uma das mãos, segredou-me lamuriosamente:
- Deixe ver uns níqueis!
- Pois não! - respondi, correndo os dedos ao bolso. - Dou-lhe até coisa melhor. Mas, antes disso, preciso que o senhor me forneça algumas explicações.
- Explicações de quê?
- Em primeiro lugar, diga-me: onde estou eu?
- Aqui.
- Isso já sei, mas pergunto que casa é esta.
- É uma hospedaria.
- Hein?
- Hospedaria, sim senhor.
- E sem hóspedes?
- Os hóspedes dormem fora.
- E passam o dia aqui?
- Também não senhor.
- Ah! Compreendo... Vêm só para comer... É casa de pasto.
- Não! não há comida.
- Pior!
- Pois o senhor não compreende?...
- Não; e peço-lhe que me dê a explicação.
O tipo olhou duas ou três vezes em torno de si e, chegando a boca ao meu ouvido, soprou a seguinte frase:
- Isto é uma casa de jogo...
- Ah! Já devia ter adivinhado... E como se chama esta espelunca?...
- Hospedaria do Gato.
- Do Gato, hein? Bem me adivinhava o coração... E a que horas principia a jogatina?
- À meia-noite em ponto.
- E todos os jogadores dizem ao entrar a mesma frase que eu disse?
- Alguns; outros miam apenas. São os fregueses antigos.
- Bom! - respondi eu, entregando-lhe uma nota de dois mil-réis. - Aí tem pelo que já falou, e ganhará outro tanto se me der as informações de que ainda preciso.
- Vamos lá, mas espero que o senhor não nos comprometa. Bem sabe que estas casas...
- Descanse, as informações de que preciso só aproveitam a mim próprio; trata-se de interesses particulares.
- Então, estou às suas ordens.
- Por que razão me levou o senhor para aquela porta?
- Porque ali é a entrada para as salas de jogo.
- E onde está uma mulher que há dias foi confiada à sua guarda?
- Qual delas?
- Pois quê! O senhor tem muitas aqui?
- Tenho dez.
- Dez mulheres! Virgem Santíssima!
- E o senhor não poderá falar a nenhuma delas sem dar primeiro o sinal competente...
- O sinal?
- Sim, nós aqui chamamos sinal às palavras convencionadas entre duas ou mais pessoas para se encontrarem cá dentro em lugar seguro.
- Mas se eu lhe dissesse como é pouco mais ou menos a que eu procuro, o senhor não poderia?...
- Impossível! Nem mesmo se eu quisesse... não as conheço... Elas chegam em geral cobertas com um grande véu, e às vezes trazem máscara...
- E nunca dão o nome?
- Nunca.
- E os homens que as acompanham?
- Esses, esses têm todos uma alcunha, que só pode ser compreendida por mim, ou por meu patrão ou por algum velho freqüentador da casa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.