Por Aluísio Azevedo (1884)
— Que teríamos lucrado! Olha o disparate! Você talvez não lucrasse nada, mas eu?! Penso nisso todos os dias! Até estou mais magra! Lembrar-me só de que você é muito capaz de deixar-me neste estado... dá-me venetas de acabar com a vida!
— Não digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, às mãos te chegará!
E depois de beijá-la, sem carinho:
— Mas vamos lá. Conta o que houve entre vocês, tu e o basbaque do patrão!...
— Prometes guardar segredo?... perguntou Cecília, fazendo por esticar as carícias do noivo!
— Ora!
— Então, lá vai! O patrão quer entrar, sem ser esperado, no quarto da patroa!
— Com que fim?!
— Sei cá! Diz ele que é uma fantasia como outra qualquer!...
— Mas daí?... Que diabo tens tu a ver com isso?...
— Pois aí é que bate o ponto. A patroa fecha-se por dentro; eu fico escondida no quarto para abrir a porta ao marido! Creio que aquilo é arrufo entre os dois!
Roberto coçou a parte inferior do queixo:
— Hun-hun! resmungando. Não sei, não sei! Queira Deus que essa história não te de na cabeça!... Olha que não se encontram duas casas como esta!... Isto aqui, filha, vale mais que o céu!...
— Ora o que! fez a criada. — Não é crime introduzir um marido no quarto de sua mulher!... Aquilo foi arrufo com certeza; ela não quer dar o braço a torcer; mas eu que a conheço, sei que não lhe vou cair em desagrado; ao contrário — verás como me agradece!
— Isso é lá entre vocês, mulheres, que se entendem! Em todo o caso, é bom pensares antes no que vai fazer!
— Deixa correr o barco por minha conta!
Entretanto, o Borges, à proporção que a noite se aproximava, sentia o coração pulsar-lhe com mais força. Ah! desta vez, sem dúvida, iam acabar os seus tormentos. Aquele novo plano não poderia falhar!
Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre no antegozo de uma aventura. Nunca uma alma apaixonada ansiou tanto pela entrevista de seu ideal; nunca os segundos foram contados com tanta impaciência; nunca o momento supremo da ventura foi atraído com tanta sofreguidão.
Borges, assim que viu a casa completamente recolhida, tratou de tirar as botas e subiu pé ante pé ao segundo andar.
Não se pode conceber o sobressalto em que ia o pobre homem; tremiam-lhe as pernas; a cabeça andava-lhe à roda; o sangue afluía ao coração, que parecia querer saltar-lhe pela boca.
— Filomena já devia ter pegado no sono, ou pelo menos estar adormecendo.
Esperou mais um instante. Nada, porém, de aparecer a criada!
Decorreu mais algum tempo — um quarto de hora, uma hora talvez; ele não o podia determinar: sua impaciência fazia parecer uma noite inteira, uma eternidade. — Oh! Como o torturava aquela tardança!
E Cecília nada de aparecer; Borges principiava a desesperar. Haveria alguma novidade... Ela teria ido contar tudo à senhora? pensou o namorado, rangendo os dentes e fechando os punhos!
— Se me traíste, miserável, verás o que te sucede! Verás o que te sucede!
Mas um rumor quase imperceptível veio nesse instante do lado do quarto de Filomena; a porta abriu-se muito de mansinho, e a criada saiu cautelosamente, às apalpadelas, como se não quisesse tocar com os pés no chão.
— Está dormindo?... perguntou-lhe o Borges em segredo, indo ter com ela.
— Está respondeu Cecília no mesmo tom. Pode entrar. Mas veja se me vai comprometer...
— Descansa. Aí tens para os teus alfinetes...
Deu-lhe mais dinheiro.
A rapariga afastou-se, pensando no pobre noivo, o Roberto, que àquelas horas já devia estar farto de esperá-la; e o Borges, cheio de mil cautelas, penetrou no quarto perfumado e virginal de sua esposa.
Uma dúvida claridade de lamparina aquarelava meias sombras vagas e transparentes em torno do leito, onde Filomena se aninhava entre nuvens de linho branco. Ouvia-se um respirar tranqüilo e cadenciado, que vinha da cama.
Quando o marido sentou o primeiro pé no tapete da alcova, a mulher estremeceu, encolhendo-se toda com um suspiro.
Borges retraiu-se maquinalmente, e procurou esconder-se atrás do reposteiro da porta; mas o arfar ansiado de seu peito denunciou-o.
Filomena virou-se em um novo arrepio, e, depois de algum silêncio, perguntou com a voz alterada:
— Quem está ai?...
Borges não tugiu nem mugiu.
— Quem está aí? Não ouve?! tornou ela, erguendo a cabeça e fitando a porta.
O marido viu-a levantar a meio, desembaraçar um braço dos lençóis e procurar tateando alguma coisa na gavetinha do velador; ele, porém, não respondeu, e apenas se traiu por um estalo seco das juntas do joelho.
— Quem está aí, fale, com os diabos, se não quer receber uma bala nos miolos!
E engatilhou um revólver, fazendo pontaria ao reposteiro.
CAPÍTULO V
LUTA ABERTA
— Sou eu! disse o Borges, correndo para ela. — Não dispares! É teu marido!
Filomena, ao senti-lo perto da cama, repeliu a arma e, embrulhando-se no lençol, saltou pelo lado contrário, prestes a fugir.
— Não sairás! gritou o esposo, cortando-lhe a passagem.
— É então uma violência?! perguntou a mulher.
— Seja o que for, mas não me escaparás desta vez! — Socorro! gritou ela. Socor...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.