Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Além disso, o bispo D. Francisco de S. Jerônimo fazia notar em uma pastoral o incômodo dos moradores da cidade, perigo das crianças que iam a batizar e indecência com que se faziam as procissões saindo com o Santíssimo por entre valos, azinhagas e passos, em que se arriscava cair o sacerdote, e ainda o bispo, com a custódia levada em suas mãos, e finalmente achar-se a mesma Sé, por sua antiguidade, ameaçando ruína.
Tratou-se, pois, da mudança da Sé. Mas desde logo começaram as oposições, dificuldades e desinteligências.
Coisa célebre: Não houve ermida nem igreja que desejasse receber o corpo capitular no seu seio! Tinham todos receio de que os hóspedes se mostrassem absolutos senhores da casa a que se acolhessem.
Monsenhor Pizarro admira-se de que não se recebesse com ufania e gratidão semelhante honra.
O Bispo D. Francisco de S. Jerônimo representou ao rei em 1702, pedindo-lhe a mudança da Sé para a ermida de S. José, cuja irmandade nem obstava, nem defendia o ingresso do corpo capitular, como, pelo contrário, dificultavam os militares do Terço Velho da praça, recusando o uso da igreja da Santa Cruz, a que ele dirigia as suas vistas por mais apta. Como, porém, a ermida de S. José fosse declarada por engenheiros que a examinaram não ter capacidade para o corpo capitular, nem apresentar conveniências que aconselhassem novas obras para aumentar-lhe as proporções, voltaram-se de novo os olhos do bispo para a igreja da Cruz.
Poupo aos meus companheiros de passeio a história de uma longa e porfiada luta que durou até o ano de 1734, entre o bispo e o cabido de uma parte e a câmara e as irmandades de S. Pedro Gonçalves e Santa Cruz da outra. Basta dizer que os primeiros teimavam em querer mudar a Sé para a igreja da Santa Cruz e os segundos opunham-se pertinazmente a semelhante idéia.
O rei contemporizava, mostrando-se disposto a respeitar os direitos das irmandades da igreja da Santa Cruz. Pelo alvará de 13 de março de 1703, mandou que o governador da capitania, conferenciando a despesa precisa (por um orçamento) para se erigir novo templo, à vista da planta feita em Lisboa pelo Padre Francisco Tinoco, informasse competentemente a esse respeito. Em carta régia de 16 de fevereiro de 1705, dirigida ao bispo do Rio de Janeiro, escreveu, além de outras coisas, o seguinte: “Me pareceu encomendar-vos que com o vosso zelo e prudente persuasão animeis esses moradores a concorrer para esta obra [o novo templo] com as suas esmolas, para o que se fará um livro, que o juíz de fora rubricará, onde se farão os termos das promessas pelo escrivão da comarca, assinadas por ele e pelos promitentes, para que não haja falta, e do que se puder dar, me dareis conta, e para que a esse respeito se veja o que pode suprir a fazenda real, que nestes tempos, com tantas fortificações e presídios, não lhe resta muito com que concorrer.”
A idéia da edificação de um novo templo para catedral era útil. Mas não resolvia a questão instante. O bispo obedeceu ao rei, dirigiu ao povo uma pastoral, pedindo esmolas para a obra da Sé nova. Mas não continuou menos a instar pela mudança já pedida e pela concessão da igreja da Santa Cruz. Mas, parecendo-lhe difícil consegui-la, apesar de se oferecerem os cônegos para comprar à sua custa as casas contíguas à mesma igreja, a fim de torná-la mais espaçosa, pediu o templo paroquial da Candelária por supô-lo menos sujeito a contradições.
Depois de novas consultas e de um longo adiamento da decisão deste assunto, facultou o rei, em data de 2 de abril de 1721, a mudança da Sé para a Candelária. Morrendo, porém, o Bispo D. Francisco de S. Jerônimo, ficou ainda suspensa a execução desta providência.
Sucedeu a este bispo na mitra do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio de Guadalupe que, conseguindo do rei o alvará de 30 de setembro de 1733, ordenando a trasladação da Sé para a sempre desejada igreja da Santa Cruz, que deveria perder este título, pondo-se no altar-mor um painel da imagem de S. Sebastião, para que este ficasse sendo como até esse tempo, titular da catedral e também pertencendo esse templo ao padroado real, como pertenciam as catedrais todas das conquistas portuguesas, viu-se ainda embaraçado o novo bispo pela câmara, que opôs dúvidas a mudança da Sé.
Mas, nestas circunstâncias, o cabido mostrou que era homem, e que homem! Nada menos que Alexandre Magno. Lembrou-se do herói macedônio, do nó górdio e do famoso non interest quomodo solvatur.
Os meios legais são muito bonitos e dignos de todo o respeito, quando se trata de defender a causa própria. Mas em caso em que é preciso tomar a casa alheia, faz-se da lei gato e sapato, preconiza-se o encanto do poder da força e reputa-se o non interest quomodo solvatur à última expressão da sabedoria humana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.