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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

2 mestres de cerimônias 600$000

1 dito 1:000$000

2 tesoureiros da sacristia 400$000

3 organistas 500$000

12 sacristães 200$000

3 moços de maça 200$000

É possível que este quadro não esteja absolutamente exato. Se o não está, asseguro que ele não peca porque eu exagerasse o número dos ministros da Sé, nem porque lhes tenha eu marcado côngruas e gratificações de mais. Copiei tudo de um documento oficial.

E a respeito das côngruas, devo acrescentar que com toda a certeza os ministros da catedral as reputam muito insuficientes, e pedem, ou estão prontos a pedir que elas sejam aumentadas, o que não é para admirar em um tempo em que todos, sem exceção, pedem mais dinheiro do que ganham e nunca se acham satisfeitos com a partilha do grande bolo.

Dizem por aí que os ministros da Sé, como todos os outros eclesiásticos, precisam menos de bons rendimentos do que os outros homens, porque pertencem, moralmente falando, ao sexo neutro, isto é, a um sexo que não é masculino nem feminino, visto que não tem descendência. Eles, porém, protestam neste caso contra as teorias e requerem que se olhe para os fatos.

Ora, a lógica dos fatos é irresistível.

Continuemos.

O primitivo e modesto corpo capitular foi instituído na catedral, que, conforme já disse, se estabeleceu na igreja de S. Sebastião, erigida no alto monte de S. Januário, um dos cabeços do morro do Castelo, igreja onde teve assento a primeira matriz da cidade do Rio de Janeiro.

Em tão mau estado já se achava por esse tempo a igreja de S. Sebastião do Castelo, que, em 1659, o prelado Manuel de Sousa e Almada tratava de desfabricá-la e de passar a matriz para a ermida de S. José, e ameaçava ao senado da Câmara, que lhe representara contra essa medida, com duas excomunhões da bula da Ceia.

Com efeito, desde aquele ano talvez, e sem dúvida, desde antes de 1661, passaram a pia batismal e o sacrário da matriz de S. Sebastião para a ermida de S. José, que ficou servindo de matriz até 1734, no qual a pia batismal e o sacrário se transferiram com a Sé catedral para a igreja Santa Cruz, como veremos em breve.

Cumpre-me certamente fazer uma ligeira descrição da igreja de S. Sebastião, tal qual se mostrava no ano de 1685, em que se instituiu o corpo capitular. Como, porém, isso me e impossível, limitar-me-ei simplesmente a lembrar que D. João V, permitindo por alvará de 30 de setembro a mudança da catedral, ordenou ao mesmo tempo que, conservando-se o templo para não se perder com ele a sua memória, se estabelecesse ali uma capelania perpétua e se erigisse finalmente uma irmandade do mesmo santo.

O rei mandara, mas apenas fora obedecido em parte. Porque a ereção da irmandade não se realizou senão no vice-reinado do Conde de Resende, a título de particular devoção deste, que, além de organizar a irmandade, fez renovar a igreja e reedificar as casas anexas da sacristia à custa de esmolas pedidas ao povo.

Seria aqui a ocasião a mais oportuna para descrever a igreja de S. Sebastião tal qual a vimos em anos deste século, e tal qual se acha depois que se hospedaram nela os religiosos barbadinhos italianos. Mas desconfio que teremos de ir um pouco longe, logo que nos metermos neste empenho. Peço, pois, licença para estudar este assunto em um passeio especial que será o seguinte.

Está, portanto, adiada a descrição da igreja de S. Sebastião.

E prossigo na história, que devo contar.

À medida que corriam os anos, iam os habitantes da nova cidade do Rio de Janeiro abandonando o morro do Castelo e edificando suas casas na planície, de modo que, dentro em pouco, estava aquele reduzido a um deserto.

Como todos praticavam, também os ministros da Sé procuravam habitar no centro da povoação, e muito amigos do seu cômodo começaram a mostrar-se negligentes no cumprimento dos seus deveres.

Por outro lado, despovoando-se o morro do Castelo, principiaram a aparecer ali com facilidade latrocínios e insultos que chegavam até ao sacrilégio. Uma noite, a sentinela que velava perto da igreja de S. Sebastião sentiu notável ruido dentro dela, e medrosa ou de almas do outro mundo ou de violências dos vivos, retirou-se para um telhal vizinho, e na manhã seguinte achou-se uma porta do templo sobreposta, tendo sido roubada a caldeira de prata d’água benta. Em outra noite, desapareceram os castiçais dos altares e em uma terceira deu-se o caso do furto no cofre, onde se recolhia o Santíssimo Sacramento. O tesoureiro da Sé conservava recolhida toda a prata, não confiando mais na vigilância das sentinelas. Os ladrões não carregavam com a igreja inteira, porque não podiam levá-la às costas, e não carregavam com todo o corpo capitular, porque não tinham que fazer dele.

(continua...)

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