Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Na igreja de S. Domingos, em Benfica, no reino de Portugal, fizera Frei Manuel da Cruz construir uma capela dedicada ao taumaturgo português S. Gonçalo, e aí mandara abrir uma sepultura para descanso do seu corpo. A 6 de janeiro de 1685, morreu com S. Gonçalo na boca e nos braços, como diz Pizarro, e foi sepultado na cova que para si preparara.

Apesar de ter sido político e diplomata, isto é, cultor de duas artes que são às vezes não pouco diabólicas, Frei Manuel da Cruz deixou fama de bem-aventurado. Diz-se que ao ato do ofício da sua sepultura assistira um formoso jovem que a todos admirara, e que misteriosamente desaparecera ao recolher-se o caixão ao jazigo, sem que o conhecessem nem a família, nem os amigos do finado. Acreditou-se que o jovem era S. Gonçalo.

Recomendo aos políticos da minha terra esta tradição. Façam-se devotos de S. Gonçalo todos eles. Creiam que precisam muito de um zeloso advogado no Céu, porque, pelas obras que têm feito no Brasil, ou eu me engano muito, ou, a não valer-lhes a intercessão de algum santo, irão direitinho para o Inferno.

Renunciada a mitra por D. frei Manuel Pereira foi nomeado bispo do Rio de Janeiro o padre José de Barros de Alarcão, natural de Leiria, o qual, tendo a sua eleição confirmada pelo Santo Padre Inocêncio IX, a 19 de agosto de 1680, tomou posse da mitra por seu procurador Padre Sebastião Barreto de Brito, vigário da freguesia de N. S. da Candelária, a quem coube o governo eclesiástico, até que ele chegou à cidade de S. Sabestião do Rio de Janeiro no 19 de junho de 1682, e fez a sua entrada solene no dia 13 do mesmo mês.

Não existe documento algum que ateste positivamente a época em que se instituiu o corpo capitular do bispado do Rio de Janeiro. O Bispo D. frei Antônio de Guadalupe, falando da origem do cabido no prelúdio dos estatutos que lhe deu a 21 de setembro de 1736, diz que ele fora instituído a 19 de janeiro de 1685, e o cabido em uma representação que dirigiu ao rei em 1733, firmou a criação da Sé na era de 1684. Felizmente, porém, a crítica de Monsenhor Pizarro faz-nos escapar a esta dúvida, ensinando-nos que, em 1684, o Bispo José de Barros Alarcão nomeara os sujeitos dignos de ocupar os benefícios da nova Sé, e que a instituição do corpo capitular se realizara no dia 18 de janeiro de 1685.

A corporação catedral foi criada com cinco dignidades, a saber: deão, chantre, tesoureiro-mor, mestre-escola e arcediago, seis cônegos de prebenda inteira e dois de meia prebenda, um subchantre, quatro capelães, quatro moços de coro, um organista, um mestre de capela, um sacristão, um porteiro da maça, um cura e um coadjutor, e pela provisão de 1º de março de 1689 teve mestre de cerimônias.

Esta moderníssima organização do corpo capitular foi sendo pouco a pouco modificada, aumentando-se sempre o seu pessoal, que se elevou nos modernos tempos ao número que se apreciara em um quadro que apresentarei daqui a pouco.

As côngruas estabelecidas primitivamente aos ministros da Sé foram também muito moderadas e dão idéia da vida barata daqueles tempos. A provisão de 18 de novembro de 1681, em que o príncipe regente D. Pedro determinou o número dos ministros de que se havia de compor o corpo capitular, regulou as côngruas cumpetentes, arbitrando-as assim: côngruas, do deão, 100$; a cada uma das dignidades, 80$; a cada um dos cônegos de prebenda inteira, 60$; a cada um dos de meia prebenda, 30$; a cada um dos capelães, 25$; ao subchantre, 10$; a cada um dos moços de coro, 12$; ao sacristão, 25$; ao porteiro da maça, 10$; ao mestre da capela, 40$; ao organista, 25$; ao cura, 73$920; ao coadjutor 25$, e finalmente ao mestre de cerimônias, por ordem de 1º de março de 1689, 10$.

É claro que, com o andar do tempo, não podiam tais côngruas deixar de ser elevadas e o foram por muitas vezes, observando-se até, por ordem de 25 de setembro de 1758, que os capitulares tiveram a dita de vencer as suas côngruas durante um ano ainda depois de mortos, para ajuda das despesas do seu tratamento na moléstia e do seu funeral. Os padres, que sabem dar nomes às coisas, chamaram a essa côngrua dalém-túmulo – o ano morto. O que eu não sei é como ainda não se lembraram de introduzir esta moda do ano morto a favor dos altos funcionários do Estado. É verdade que a indústria política inventou coisa muito melhor e mais sublime, criando as famosas ajudas de custo, misteriosa mamadeira, que é o ano vivo dos políticos velhos, e que vale às vezes por dez, e às vezes por vinte anos mortos dos ministros da Sé.

Aproveitarei agora um ligeiro quadro da corporação catedral e dos empregados da capela imperial na atualidade e com os seus respectivos vencimentos. A comparação destes com as côngruas estabelecidas na época da instituição do corpo capitular nos fará admirar a diferença dos tempos e das coisas.

Eis aqui o quadro:

Classes Côngruas Gratificação

6 monsenhores 1:200$000 800$000

16 cônegos 800$000 400$000

14 capelães 600$000

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...173174175176177...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →