Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Por carta de 7 de outubro de 1639, Filipe IV de Espanha e III de Portugal, requereu à Sé Apostólica a elevação da prelazia do Rio de Janeiro a bispado e nomeou para ocupar a mitra fluminense o competente prelado administrador eclesiástico Lourenço de Mendonça, declarando, por outra carta régia de 22 de agosto oe 1640, as causas por que assim deliberava.
Essas causas referiam-se às tramas urdidas contra Lourenço de Mendonça no Rio de Janeiro, e aos abusos e desmoralização que se observavam em algumas capitanias do sul do Brasil.
Contarei resumidamente essa feia história.
O Dr. Lourenço de Mendonça, natural de Lisboa e presbítero secular, nomeado administrador eclesiástico do Rio de Janeiro, chegou a esta cidade a 9 de setembro de 1632, e quatro dias depois, começou logo a experimentar violenta oposição. Os seus inimigos chegaram ao ponto de introduzirem de noite um barril de pólvora com quatro morrões por uma janela da sua casa e de o colocarem junto ao leito do prelado, que felizmente escapou da horrível tentativa de assassinato, ardendo, porém, toda a casa, como já em outro passeio referi.
Procedeu-se, em consequência, a uma devassa cujo resultado foi contrário ao prelado, que ainda em cima pagou as custas.
Choveram depois libelos infamatórios contra o Dr. Lourenço de Mendonça, imputaram-se criminosos vícios, de que o acusaram perante o metropolitano da Bahia; e os aleivosos, não colhendo desta acusação o que esperavam, recorreram a outra de um fato escandaloso em presença do tribunal da Fé; e enfim, premeditavam levá-lo preso em um barco até fora da barra e lá abandoná-lo à inconstância e ao ímpeto das vagas, quando Mendonça, avisado de tão sinistros planos, fugiu ao perigo, embarcando-se em uma nau que o levou a Portugal em março ou abril de 1637.
Julgado inocente do crime dc que o acusavam por sentença do tribunal da Inquisição, recebeu a confiança de novos cargos e teve finalmenie a honra de ser nomeado bispo do Rio de Janeiro, na data já apontada.
Diz-se, e Pizarro sustenta, que o bispado do Rio de Janeiro fora então criado para defensa dos índios atropelados pelos paulistas, e que Lourenço de Mendonça tinha sido insultado por aqueles cativadores do gentio e pelo povo e câmara da cidade do Rio de Janeiro, em conseqüência de suas manifestas disposições e do seu empenho a favor dos míseros selvagens. Mas é preciso atender a que Pizarro, padre também, desejaria muito arredar da sua classe a responsabilidade dos criminosos e horríveis atentados que mais de uma vez puseram em risco a vida de Lourenço de Mendonça, embora, em sua consciência de escritor fiel e homem de verdade, houvesse já declarado que “entre os intrigantes mais notáveis apareceram alguns eclesiásticos (como os padres Manuel da Nóbrega, Francisco Carneiro e um frei João da Cruz), a quem a fortuna menos próspera desviou de ocupar benefícios curados.
Eu estou convencido de que em todas aquelas desordens e tramas abomináveis entrou muito notavelmente a influência maligna de padres ambiciosos, e bem quisera achar sempre pura a memória do Dr.
Lourenço de Mendonça. Encontro nela, porém, um fato que desabona o seu caráter. Mendonça era português e em 1640 seguiu o partido da Espanha e lá ficou sendo bispo d’Anel do arcebispado de Toledo. Era mais bonito mais nobre ser sacristão da última capelinha da sua terra do que bispo ou arcebispo de Castela. Depois de Deus a pátria. A pátria é o Céu da Terra.
A revolução de Portugal, em 1640, anulou as negociações para a criação do bispado do Rio de Janeiro. D. João IV e Afonso VI não trataram disso. Mas o príncipe regente D. Pedro, a quem o Brasil deveu não poucos cuidados, conseguiu do papa Inocêncio XI a bula Romani Pontificis pastoralis solicitudo, de 16 de novembro de 1676, determinando a elevação do bispado da Bahia a arcebispado e das prelazias do Rio de Janeiro e Pernambuco a bispados.
“Por território do bispado do Rio de Janeiro foram demarcados os limites desde a capitania do Espírito Santo até ao Rio da Prata, correndo a costa do mar, e nessa correspondência toda a terra central a topar com a do domínio espanhol, não obstante qualquer outra separação ou desmembração da Província do Rio de Janeiro anteriormente feita, etc.”
Monsenhor Pizarro, que isto informa, acrescenta depois:
“Mas apesar da explicada demarcação, continuou a capitania de Porto Seguro, sita na latitude austral de 16º40’ e longitude de 34º45’, a compreender-se no termo divisório, etc.”
O primeiro bispo nomeado para o Rio de Janeiro foi Frei Manuel Pereira, homem de tantas virtudes como ilustração. Mas depois de sagrado, renunciou a sede em 1640, porque o serviço da pátria e a confiança do soberano o chamaram a exercer altas funções políticas, como secretário de Estado e um dos plenipotenciários que, com o duque de Cadaval e o marquês de Fronteira, assinaram o tratado de 7 de maio de 1861, celebrado com a Espanha sobre a colônia do Sacramento.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.