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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Atualmente nós temos um número muito maior de Bitus do que havia no Rio de Janeiro no fim do século passado e no princípio do atual, e a diferença que se nota entre um e outros é que os Bitus do outro tempo eram mais rudes e mais farroupilhas, e os de agora são civilizados e até mesmo um pouco fidalgos.

Dantes, as intrigas de amor e os namoros teciam-se às ocultas, e o seu segredo era um sinal de respeito à sociedade. Hoje namora-se e escrevem-se cartas de amor à face do público e sem vergonha nenhuma.

Temos na atualidade excelentes Bitus que se fazem portadores de cartas de amor a tantos réis por linha.

A civilização desregrou-se neste ponto de modo tal que transformou a nobre filha de Gutenberg em mensageira de amores! Os namorados e namoradas não têm mais trabalho em arranjar bons e fiéis Mercúrios. As nossas gazetas diárias publicam com sublime dedicação quantos bilhetinhos amorosos lhes querem levar.

Temos – Gazetas-Bitus – que fazem perfeitamente o que fazia com rudeza o Bitu de outro tempo.

O que eu mais lamento no Bitu é a nódoa com que ele manchou com o seu indigno proceder a nobre farda que lhe dava o título de soldado de Henrique Dias, de soldado de um desses corpos que herdaram o nome daquele valente guerreiro e herói esclarecido, que desde o princípio até ao fim da guerra holandesa no Brasil, batalhou sempre denodada e valorosamente contra o estrangeiro invasor, sem que por isso merecesse de D. João IV o menor galardão, o mais insignificante prêmio, quando esse rei, mil vezes ingrato com ele, premiou e agraciou, depois de terminada a guerra a todos os chefes portugueses e pernambucanos.

D. João IV não tolerou talvez a idéia de ornar o peito daquele negro com uma medalha de honra! Esqueceu-se ou não pensou que no peito daquele nobre negro não haveria medalha, por mais estimada que fosse, que deixasse de ficar mais honrada.

Mas deixemos o indigno Bitu e o digníssimo Henrique Dias, e vamos tratar de fazer ponto final em nossas observações sobre o morro do Castelo.

O receio de novos e mais terríveis desmoronamentos, e o empenho de dar mais beleza à cidade e de libertá-la de uma colossal muralha que não a deixa ser francamente banhada pelos ventos do mar têm feito com que por vezes se haja projetado e tratado de organizar empresas destinadas a demolir o morro do Castelo.

Dizem que foram ingleses os que primeiro, e ainda no tempo do rei, conceberam tal idéia, e o povo rude, a gente menos sensata, pensava então que os espertalhões ingleses queriam demolir o morro para enriquecer-se com os tesouros deixados pelos jesuítas em vastos e profundos subterrâneos.

A magnitude da empresa, a necessidade de estudos completos sobre a utilidade e condições da obra e, sobretudo, a falta de dinheiro, têm impedido a demolição do morro histórico.

E até hoje não me consta que alguém se tenha posto em campo, defendendo o morro do Castelo, senão o Sr. Varnhagen, que, na sua História Geral do Brasil se mostrou armado de ponto em branco e de lança em riste, declarando e sustentando que a demolição do morro do Castelo tornaria a cidade do Rio de Janeiro mais monótona e menos fresca do que se em suas encostas se plantassem árvores, destinando-as para passeio público da cidade.

Mas o Sr. Varnhagen não tem conseguido fazer prosélitos. Nem ao menos os frades barbadinhos italianos se lembram de erguer a voz para impedir a destruição da igreja de S. Sebastião e para defender as suas elásticas propriedades do morro.

Que têm com isso os barbadinhos. Se for demolido o Castelo, sempre há de haver para eles um suave asilo. Os barbadinhos italianos arranjam-se em qualquer cantinho, até porque sabem o segredo de transformar em poucos anos um pequeno cantinho em um grande cantão.

O que vai ao morro do Castelo é a anemia da praça. Não se faz fogo por falta de pólvora.

E no entanto, como a ameaça da demolição é a espada de Dâmocles, que continua sempre suspensa sobre o morro desarmado, o governo não compreende obras sérias para impedir um desastroso desmoronamento, que, aliás, está muito na ordem das coisas possíveis, e se contenta em mandar especar aquele colosso.

Ah! Muita coisa neste menino-velho, chamado Brasil, anda por espeques!

Creio que é tempo de dar por terminado este passeio. No seguinte, desceremos do morro do Castelo com o cabido, levando a Sé às costas.

III

Façam de conta que os dois precedentes passeios foram dois exórdios de um discurso que devo proferir sobre a Sé do Rio de Janeiro, e não se admirem de que eu pronuncie um discurso com dois exórdios, porque conheço na minha terra grandes oradores que tomam a palavra, falam duas e mais horas e descem da tribuna no meio de bravos, apoiados e aplausos, não tendo feito outra coisa mais do que uma ou duas dúzias de exórdios.

Ao menos, eu me contentei com dois exórdios somente e já entro na matéria.

(continua...)

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