Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Semelhante às antigas e prestigiosas instituições que, arraigadas aos costumes dos povos e defendidas pelos interesses e pelas tradições de classes privilegiadas, resistem à força potente da civilização e do progresso e à influência destruidora do tempo, e só pouco e pouco se vão desmoronando, agora pelo triunfo pacífico de novas idéias, logo pelo impulso violento de uma revolução política, o morro do Castelo, firmado em sua imensa base, tem até hoje zombado de não sei quantos projetos e planos de arrasamento com que o ameaçam desde muitos anos; e apenas vai sofrendo escavações parciais determinadas pela conveniência de alguns particulares que se utilizam do seu barro, ou cedendo ao ímpeto das tempestades e das águas, desmorona porções de sua terra com espanto e bem fundado susto dos habitantes da cidade.
Desses desmoronamentos houve dois principais que a memória do povo conserva até hoje tristemente lembrados.
O primeiro ocorreu em abril de 1759. Mas nem causou desgraças tão lamentáveis, nem foi tão considerável como o segundo. O povo teve então menos terror do desmoronamento do morro do que da inundação extraordinária da cidade.
Eis aqui a lembrança desse acontecimento exatamente como a perpetuou Baltasar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro.
“As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes convulsões do ar e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderou de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram por tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas dentro, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma navegou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do Rosário dos pretos) com sete pessoas.”
O segundo e terrível desmoronamento do morro do Castelo aconteceu em fevereiro de 1811.
No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas onze horas da manhã, começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As ruas e casas ficaram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse tempo com cinco palmos d’água, e no campo de Santana (hoje da Aclamação), navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.
É facil compreender o susto da população, que falava tremendo, em um novo Dilúvio.
E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e amargurados dias correu uma das abas do morro do Castelo, ficando soterradas muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo sepultadas em vida famílias inteiras.
A esta inundação formidável deu-se então o nome de água do monte, e essas duas palavras água do monte resumiram também nas conversações populares a história toda do fatal desabamento.
A família real portuguesa já estava nesse tempo no Rio de Janeiro, e o príncipe regente, receoso de maiores desgraças em alguma nova água do monte, mandou arrasar uma muralha que havia no Castelo, sobranceira à cidade.
O povo ocupou-se muito com o sinistro acontecimento. Mas depois de lamentá-lo e de chorar as vítimas, inventou até uma rude cantiga, que se refere à água do monte.
É a célebre cantiga do Bitu, que principia assim:
Vem cá, Bitu, vem cá!
E cuja segunda estrofe é a seguinte:
Que é do teu camarada?...
Água do monte o levou. Não foi água, não foi nada, Foi cachaça que o matou.
O Bitu, de que fala a cantiga, era um crioulo apaixonado das bebidas alcoólicas, e soldado do corpo dos Henriques. Trajava o clássico calção, capote de pano verde e chapéu de três pancadas. Vivia de duas indústrias, uma pública e outra misteriosa. A pública era muito simples. Andava cantando pelas ruas e fazendo dançar um boneco de molas que levava na mão. Os apreciadores deste precursor dos italianos de realejo pagavam-lhe a habilidade com alguns vinténs. Como, porém, o Bitu fosse muito engraçado, chamavam-no para o interior das casas as famílias que queriam divertir-se, ouvindo-o cantar e tagarelar, e daí nascia a facilidade com que esse original exercia a sua segunda indústria, que consistia em prestar-se a ser mensageiro de amor.
Que imoralidade! Que corrupção de costumes – dirão talvez, escondendo o rosto, certos homens muito sérios e perdidamente pudibundos do nosso tempo.
Alto lá! Não sou dos que têm saudades das coisas do século passado, e nem mesmo da nossa primeira época neste século. Mas também não apóio as injustiças com que alguns as julgam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.