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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— E esta! insistia o Paiva. – Pois se a gente paga muito mais para ficar em liberdade, como diabo há de se admitir isto?!...

— Tem toda a razão! Tem toda a razão!...repetia o gerente, erguendo as cadeiras e apanhando do tapete os cacos de vidro.

Só então intervieram os outros rapazes. Amâncio, até aí, parecia colado à cadeira .Estava lívido e as pernas tremiam-lhe.

O gerente ia responder a todos, quando a porta se tornou a abrir, e o Brás, ainda transformado pela comoção da briga, ofegante e pálido, quase sem poder falar, entrou, dizendo, — que ia pedir desculpa da grosseria por ele praticada há pouco.

— Mas estava possesso! justificava-se ele. — Aquela não-sei-que-diga lhe fazia perder as estribeiras! Que o desculpassem, porque um homem em certas ocasiões nem se podia conter! Uma mulher, com quem já havia gasto para mais de dez contos de réis!...exclamava ele fora de si. Uma mulher que erguera da lama podia assim dizer! Uma desgraçada que antes de o conhecer, não podia ir a parte alguma por não ter um vestido capaz!...Uma miserável, que dantes, para matar a fome, precisava aviar encomendas de costura e se andar alugando na casa de modistas!...Era duro! Pois não achavam?!

Os estudantes meneavam a cabeça ,afirmativamente.

— Ah! continuou o Brás. — Aquelas contas tinham-se de ajustar na primeira ocasião em que ele a encontrasse com o tal troca-tintas! Ah! Já não podia! Era demais! Uh!

E passeava no gabinete, a empurrar com o pé os cacos esquecidos no chão, e a sorver o ar em grandes haustos, consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da consciências.

As palavras do Brás tranqüilizaram os rapazes, cuja embriaguez parecia ter fugido com o susto. O Simões chegou mesmo a rir do fato, jactando-se mais uma vez da sua eterna indiferença pelas mulheres. — Com ele é que nunca haveria de suceder semelhante coisa!...afirmava.

Amâncio convidou o Brás a beber, e vazou-lhe vinho num copo.

— Aquela descarada! resmungava o ciumento, examinando uma arranhadura que vinha de descobrir na mão direita. — Ela, porém, comigo está iludida! — ou me anda muito direitinha ou há de me ficar debaixo dos pés! Pedaço de uma ingrata! E, voltando-se para o gerente que acabava de entrar;

— O sujeitinho foi-se, hein?

— Ora!...respondeu aquele com um riso servil. — Ganhou logo a rua e...por aqui é o caminho! Ela é que pelos modos, ficou bem convidada! Meteu-se no quarto a chorar.

— Pois que chore na cama que é lugar quente! Não fosse ordinária! Faça lá o que bem entender, mas, com os diabos! não enquanto estiver comigo! Vá divertir-se com o boi! Sebo!

E passado logo em seguida pra um tom de voz calma e amiga. disse baixo ao gerente:

— Veja de quanto foi o prejuízo e faça uma conta a parte.

Pediu ainda uma vez desculpa aos rapazes, afiançou que eles tinham um criado na Ladeira da Glória, número tantos, e saiu, sempre às voltas com a sua arranhadura da mão direita.

Amâncio quis condenar o fato, mas o Paiva observou-lhe que aquilo se dava todos os dias no Rio de Janeiro.

— Eu já não estranho! disse.— Falta de educação!...

— Bem, meus senhores, são horas de eu me ir também chegando, advertiu Coqueiro, erguendo-se enfiando o paletó.

O Simões fez igual movimento e declarou que o acompanhava.

— Então, que é isto já? Exclamou Amâncio, querendo detê-los.

— É. Está se fazendo tarde, respondeu Coqueiro, a consultar o relógio. — Três horas.

— Impossível!negou Amâncio. — Era exato.

E Coqueiro, já de chapéu na cabeça e guarda-chuva debaixo do braço, apertou-lhe a mão com as duas, dizendo que folgava em extremo haver travado relações com ele e que o esperava, sem falta, no Domingo. Simões fez igualmente as suas despedidas, e os dois saíram a conversar sobre o quanto poderia custar a Amâncio aquele almoço.

— Também, que diabo, ficamos nós fazendo aqui? lembrou o Paiva, quando se viu a sós com o amigo. — Paga isso e vamo-nos embora. Queres tu ir até lá a casa?...

— Mas eu já estou a tanto tempo na rua ...considerou Amâncio.

— E o que tem isso?!...Deves contas de ti a alguém?! Ora essa!

— É que o Campos pode reparar!...

— Pois que repare! Manda plantar batatas ao tal de Campos! Tu não és nenhum caixeiro dele...Eu, no teu caso, nem ficava ali mais um dia! Que necessidade tens agora de passar às sopas de um negociante, e sujeitares-te a regulamentos comerciais? É de mau gosto estar hospedado em casa de negócio! Olha! Se quiseres, muda-te lá para a república. Sempre é outra coisa morar com rapazes! Aprende-se!

O criado, a quem já tinham pedido a conta, entrou com uma pequena salva na mão e foi, instintivamente, depô-la em frente de Amâncio.

— Espere, disse este, tirando dinheiro do bolso. E entregou-lhe uma nota de cem mil — réis.

O moço saiu correndo.

— Quanto foi? desejou saber o Paiva.

Oitenta e cinco mil-réis, respondeu o outro.

— Oitenta e cinco mil-réis! Oh! Que grande ladroeira!

E logo que o criado voltou com o troco:

– Homem, faça o favor de dizer em que se gastou aqui oitenta e cinco milréis!.. Salvo se vossemecês metem também na conta o que quebrou o Brás!

(continua...)

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