Por Bernardo Guimarães (1883)
Conrado interrompeo-se; a ernoção, que se apoderava de sue alma com aquellas recordaçõeg, provocavão-lhe as lagrimas. Pousou a fronte sobre a almofada do sophá, e escondeo o rosto entre as mãos procurando dominar sua perturbação. Lucinda o contemplava com ay satisfeito e enternecido, e nao quiz perturbal-o em sua passageira scisma; as cousas corpiño do modo o mais propicio papa o intento, que alli a trouxera.
Mas dize-me, Lncinda, — disse bruscamente Conrado, levantando a cabeça da almofada, — a que proposito te veio essa lembrança de um filho meu e de Adelaide, de uma cousa impossivel ?
Impóssivel Ah! meu branco, perdão, eu sei de tudo.
— De que, Lucinda? — exclamou o moço impacientando-se.
— Não se zangue com sua preta, nhÔ Conrado, disse Lucinda abafando a voz e com ar supplicante. — Eu sei de tudo o que mecê sabe, e de mais alguma cousa, que mecê ainda não sabe.
— Matas-me a paciencia!... falla de uma vez, Lucinda.
— Pois bem, eu vou fallar bem claro. Sinhá Adelaide teve uma filha, que nasceo poucos mezes depois que mecê desappareceo de S. Paulo.
— Que estás dizendo, Lucinda! — gritou Conrado levantando-se de um salto, e collocando-se defronte da preta arquejante e pallido de sorpreza e emoção. — Adelaide teve uma filha... de mim?
— Pois de quem mais, nhO Conrado'?...
— E é viva ainda?
— É sim, senhor.
— E onde está ella?
— Lá em casa.
— Em casa de quem?
— De meu senhor ; com sinhá Adelaide.
— Sancto Deos!... como póde ser isto!... minha filha, si a tenho, deve estar já entrada em quatorze annos ; entretanto ha mais de cinco annos, que moro aqui S. Paulo, nunca me constou que em casa do major existisse essa menina. Oh! porque não me contarão isso ha mais tempo?...
— Ah! meu senhor moço ! quer mecê creia, quer não creia, é porque nós tambem não ficamos sabendo de tal cousa, sinão de hontem para hoje, e ha apenas um mez que a menina está lá em casa. E saiba mais uma cousa, que lhe vae doer bastante no coração, mas tenha paciencia, é preciso que saiba de tudo para poder valer á sua filha. Saiba que sua filha foi para lá como escrava, e como escrava là está até agora.
— Como escrava!... minha filha como escrava! e em casa de sua propria mãe tu estás zombando commigo, Lucinda! explicame isso já, si não queres me pôr doido.
— Tenha paciencia, nho Conrado; sente-se outra vez no seu canapé, socegue seu coração, que eu lhe vou contar tudo o que aconteceo depois que mecê se foi embora de S. Paulo.
— Sim ! sim ! . . . conta-me tudo, e depressa, que estou morrendo de impaciencia.
Conrado chamou um creado, e ordenou-lhe que dissesse a quem quer que o procurasse,que não se achava em casa. Interessava-lhe ao ultimo ponto a narração que ia escutar, e não lhe convinha por modo algum ser interrompido. Não quiz que se accendessem luzes no salão, — pois já vinha descendo a noite, re— commendou que todos os famulos e escravos se recolhessem ao fundo do edificio, trancou algumas portas, e voltou para junto de Lucinda.
Todas estas precauções, inspiradas pelos nobres e delicados sentimentos de Conrado, erão necessarias, porque só elle devia ouvir o que a preta ia revelar; tratava-se da honra de uma senhora, a quem muito amára, a quem muito estimava ainda, e cuja reputação até aquella data se tinha conservado illibada.
Que diabo de negocio terá elle com aquella bruxa velha? murmuravão entre si os creados curiosos e pasmados de tão estranha e mysteriosa conferencia.
CAPITULO VIII
Revelação.
Lucinda contou minuciosamente a Conrado tudo, o que havia succedido em casa do major desde a época em que aquelle repellido com brutal tenacidade em suas pretenções á mão de Adelaide vira-se forçado a retirar-se de S. Paulo. Informou-o das rigorosas medidas e precauções que o major tomára a fim de interceptar toda e qualquer communicação entre os dous amantes, de modo que não lhes foi possivel nem mesmo fazel-o sabedor do grave e melindroso estado em que se achava Adelaide. Si não fosse a dilatada e opportuna viagem que fizera o major, e os cuidados e precauções tomadas por ella, Lucinda, não sabe o que teria sido da honra e mesmo da vida da pobre sinhá, que teria talvez succumbido victima da colera do pae.
Narrou-lhe como em uma noite Adelaide,
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.