Por José de Alencar (1853)
Estes contos feitos pelos dois moços caçadores excitaram ao ultimo ponto a curiosidade de toda a gente de S. Sebastião e desde o dia seguinte muitos se notaram para o outeiro movidos pelo desejo de verificarem por si mesmo, com os proprios olhos, a verdade do que se dizia.
Frustrou-se-lhes porém o intento. Não lhes foi possivel atinar com o caminho da gruta; e o que mais admirava, até os dois caçadores que o tinham achado na vespera, estavam de todo o ponto desnorteados.
Ao cabo de grande porfia, descobriram que havia o caminho desapparecido pelo desmoronamento de uma grande rocha, a qual formava uma como ponte suspensa sobre o despenhadeiro da ingreme escarpa.
Acreditou o povo que só Nossa Senhora da Gloria podia ter operado aquelle milagre, pois não havia homem capaz de tamanho esforço, no pequeno espaço de horas que decorrêra depois da primeira entrada dos caçadores.
Na opinião dos mestres beatos, a Virgem Santissima queria significar por aquelle modo sua vontade de ser adorada em segredo e longe das vistas pelo ermitão; o que era, accrescentavam, um signal de graça mui particular, que só obtinham raros e afortunados devotos.
Desde então ninguem mais se animou a subir ao pincaro do outeiro, onde estava o nicho de Nossa Senhora da Gloria; porém vinham muitos fieis até o lugar onde se fendêra a rocha, para verem os signaes vivos do milagre.
Foi por esse tempo tambem que o povo começou a designar o outeiro do Cattete, pela invocação de Nossa Senhora da Gioria; d'onde veiu o nome que tem' hoje esse bairro da cidade.
XVIII
O MENDIGO
Estava a findar o anno de 1659.
Ainda vivia Duarte de Moraes, então com sessenta e cinoo annos, mas viuvo da boa Ursula que o deixára havia dez para ir esperal-o no céo.
Era por tarde, tarde calida, mas formosa, como são as do Rio de Janeiro durante o verão.
O velho estava sentado em um banco á porta de casa, tomando o fresco, e scismando nos tempos idos, quando se não distrahia em ver os meninos que folgavam pela rua.
Um mendigo, coberto de andrajos e arrimado a uma muleta, aproximou-se e parando em frente ao velho esteve por muito tempo a olhal-o, e á casa, que aliás não merecia tamanha àttenção.
Notou afinal o velho Duarte aquella insistencia, e remexendo no largo bolso da vestia lá sacou um real, com que acenou ao mendigo.
Este com um riso pungente, que lhe contrahiu as feições já decompostas, achegou-se para receber a esmola. Apertando convulso a mão do velho, beijou-a com expressão de humildade e respeito.
Não se demorou porém, arrancando-se á com moção e afastou-se rapido. Sentiu o velho Duarte ao recolher a mão que ella ficára humida, do pranto do mendigo. Seus olhos cangados da veIhice acompanharam o vulto coberto de andrajos; e já este havia desapparecido, que ainda elles estendiam pelo espaço a sua muda interrogação.
Quem havia no mundo ainda para derramar aquelle pranto de ternura ao encontral-o a elle, pobre peregrino da vida que chegava só ao termo da romagem?
— Antonio de Caminha! murmuraram os frouxos labios do velho.
Não se enganára Duarte de Moraes. Era de feito Antonio de Caminha, quem elle entrevíra mais com o coração do que com, a vista já turva, entre a barba esqualida e as rugas precoces do rosto macilento do mendigo.
Que desgraças tinham abatido o gentil cavalheiro nos annos decorridos ?
Partido do porto do Rio de Janeiro, Antonio de Caminha aproou para Lisboa, onde contava gozar das riquezas, que lhe havia, legado Ayres de Lucena, quando morrêra para o mundo.
Caminha era d'essa tempera de homens, que não possuindo em si bastante fortaleza de animo para resistir ao infortunio, buscam atordoar-se.
O golpe que soffrêra com a perda de Maria da Gloria o lançou na vida de prazeres e dissipações, qual outrora a vivêra Ayres de Lucena, si não era ainda mas desregrada.
Chegado á Bahia, por onde fez escala, foi Antonio de Caminha arrastado pelo fausto que havia na então capital do Estado do Brasil, e de que nos deixou noticia o chronista Gabriel Soares.
A escuna, outrora consagrada á Virgem Purissima, transformou-se em uma taverna de brodios e convivios. No tombadilho onde os rudes marinheiros ajoelhavam para invocar a protecção da sua Gloriosa Padroeira, não se via agora sinão a meza dos banquetes, nem se escutavam mais que falas de amor e bocejos de ebrios.
A dama em tenção de quem se davam esses festins, era uma cortezã da cidade do Salvador, tão notavel pela formosura, como pelos escandalos com que affrontava a moral e a igreja.
Um dia teve a. pecadora a fantasia de trocar o nome de Maria da Gloria que tinha a escuna, pelo de Maria dos Prazeres que ella trouxera da pia, e tão proprio lhe sahíra.
Com o espirito annuveado pelos vapores do vinho, não teve Antonio de Caminha força, nem vontade de resistir ao requebro d'olhos que lançou-lhe a dama.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.