Por José de Alencar (1878)
A lua assomara sobre o dorso do Corcovado; a sua claridade alva e doce como a luz coada por um globo de cristal diáfano estampou-se nessa face da casa.
À medida que o astro elevava-se no horizonte, essa faixa de luar cortada pela cornija do teto desdobrava-se sobre a parede.
Amália seguia com ansiedade o perfil luminoso, impaciente de que penetrasse no aposento e o esclarecesse.
A princípio nada pôde distinguir porque as réstias mutilavam os objetos, deixando uma parte na sombra.
Chegou, porém, o momento em que viu. A sala fora inundada pelo luar; e o interior aparecia como uma cena de teatro, iluminada pela eletricidade.
A moça não teve a mesma súbita comoção que da outra vez. Então ela nada suspeitava, e o fato se
havia apresentado a seus olhos de repente em toda a sua realidade. Agora, além de já temer a repetição do golpe, fora a pouco e pouco, reunindo os traços, lobrigando os vultos indecisos, que ela vira afinal desenhar-se o painel.
Lá estava a mesma mulher da outra noite, não sentada como da primeira vez, mas reclinada em uma conversadeira acolchoada de cetim azul; e ainda mais encantadora.
Tinha adormecido, com a cabeça pousada na curva do braço, e o corpo meio voltado. O roupão de fina cambraia, fechado na gola e nos punhos envolvia o seu talhe, moldando os contornos graciosos, que não se podiam ver, mas palpavam-se com os olhos.
Amália admirava com toda a violência do ódio, que lhe inspirava semelhante criatura. Envergonhava-se de ser bonita também como ela; e ao mesmo tempo sentia não ter uma formosura ainda mais esplêndida para humilhá-la.
Um instante depois Amália recuou precipitadamente, cobrindo o rosto com as mãos. Hermano, que tinha entrado no aposento, achava-se de pé junto à conversadeira.
As faces da moça abrasaram-se do pejo que sentiu. Revoltou-se contra a audácia daquele homem; e a indiferença dessa mulher que dormia quando um olhar indiscreto devassava o seu recato.
Tinha medo de ver; e uma irresistível tentação de olhar. Voltou as costas para a janela; mas não teve coragem de afastar-se. Entretanto Hermano aproximara-se silenciosamente da conversadeira, sentara-se ao lado e ficou imóvel, como se receasse levantar o menor rumor no aposento.
Esta cena exacerbou a cólera de Amália e o seu escândalo pela traição de Hermano. Nasceu-lhe um desejo veemente de vingar Julieta. Se ela pudesse subtrair o marido pérfido à sedução da amante; arrastá-lo a seus pés humilde e submisso; exprobrar-lhe o seu perjúrio; e restituí-lo arrependido ao amor da esposa!...
Que não daria ela em troca desse poder? Que satisfação não teria de infligir o justo castigo a esse crime?
Mas bem compreendia, no seu despeito, que não tinha sobre Hermano a menor ação. Ela, uma das belezas mais festejadas da Corte, rainha nos salões, e dos mais brilhantes vassalos; querida e adorada por tantos admiradores, que todas as tardes faziam uma légua de carro ou a cavalo, só para a verem ao longe e de passagem; ela, Amália, não merecia a atenção daquele excêntrico, seu vizinho, que poderia se quisesse olhá-la a todo momento, comodamente, sem o menor sacrifício.
Talvez nem a conhecesse, e não soubesse que ela habitava ao lado de sua casa... Mas não; lembrou-se da vez em que o surpreendera ouvindo-a cantar; curiosidade que a tinha irritado a ponto de bater-lhe a janela.
Agora arrependia-se do seu arrebatamento. Devia ter-se contido naquele momento, e servir-se dessa impressão produzida por sua voz para atrair esse homem, fasciná-lo também com a sua beleza, dominá-lo, e então esmagá-lo com todo o seu desprezo.
Fora mal inspirada. Hermano, ofendido com a desfeita que sofrera, não se arriscaria a nova repulsa. Entretanto por que não havia ela de tentar o meio que lhe restava para reatar o primeiro e único movimento desse homem para ela?
No dia seguinte, depois do almoço, Amália sentou-se ao piano; abriu a partitura da Lucia; e hesitou por algum tempo. As portas das janelas estavam abertas; foi cerrá-las e pela fresta lançou um olhar à chácara vizinha. Estava erma e tranqüila.
Então a moça decidiu-se, e cantou com emoção que nunca tivera em suas estréias de sala. Também nunca ela cantou melhor, com mais alma e paixão.
Terminando, ergueu-se precipitadamente. Arfava-lhe o seio, menos do esforço que fizera, do que do anelo de uma esperança que a agitava. Sentia que esse momento podia decidir de seu destino.
Calcando com a mão esquerda as pulsações do coração. caminhou para a janela, pálida e trêmula, e procurou com os olhos o lugar onde Hermano a escutara da outra vez.
Não havia ninguém.
Capítulo 11
À noite apareceu Henrique Teixeira, que andava um tanto arredio.
O médico desistira do seu plano de trazer Hermano às partidas do Sr. Veiga, desde que D. Felícia tinha abandonado a idéia do casamento. Continuou, porém, a freqüentar a casa com a mesma assiduidade. Foi só quando percebeu certa repulsão de Amália para ele que se retirou.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.