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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio entre o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?  

Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do sol com a sombra, do céu com a terra. 

 

XIII 

Susto 

 

  Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu. 

  Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que estava de saber donde partira o clamor. 

- Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos. 

  Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma distração que ela não partilhava? 

- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel. 

- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe. 

- Já li; disse simplesmente Miguel. 

- Não é tão bonito? 

- Muito. 

- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda. 

  Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço. 

- O senhor não deseja formar-se? 

- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego: 

- Mas para que pensar nisto? 

- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem. 

- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo. 

- Papai lhe empresta. 

- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu. 

- Por que razão? 

  De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina: 

- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar. 

- É verdade! 

  Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos. 

- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí? 

  Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr para a figueira e veio interromper o colóquio. 

- Onde vai o sr. Galvão? 

- Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.  

- Você não me disse nada. 

- Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou tão assustada. 

- Por que? perguntou Migue. 

- Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto da fazenda um homem muito mau. 

- O bugre! 

- Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá. 

- Isso mesmo. 

  Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu o seio como para reter o coração que lhe fugia. 

- Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não agoniar mamãe ainda mais do que ela estava; porém quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trêmula. 

- Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como se faz com as crianças, para não terem medo do calhambola. 

- Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.

  - Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia estar bem longe. 

  Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno a fim de não redobrar o susto da moça. Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente calar-se. 

- Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora. 

Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele tão natural que ocorreu a Miguel. 

- Talvez tivesse esquecido alguma coisa. 

- Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas. 

(continua...)

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