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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Clarinha — Ah! Já não o esperava!

Henrique — Também era demais. Duas noites pode-se passar fora de casa, porém três... Era um escândalo!

Clarinha — Ora! que tinha isso! Podia se divertir! Não reparo nestas cousas.

Henrique — Então não está zangada comigo?

Clarinha — Zangada por quê? Não nos casamos para aborrecermo-nos todos os 365 dias do ano... Divertiu-se muito?

Henrique — Nem por isso!... Perdi o meu tempo e o melhor perdigueiro.

Clarinha — Que desgraça!... Pois nós brincamos e passeamos muito. Mano ficou na cidade; porém o Senhor Sales fez-nos sempre companhia. Esteve muito amável.

Henrique — Faço idéia! Quantas vezes falou da viagem à Europa?

Clarinha — Uma vez só! Não sabes! Confessou-me que tinha feito essa viagem por causa de um desgosto que sofrera. Um casamento... Não sei o quê!...

Henrique — Estou muito fatigado para ouvir agora as histórias de Sales, Clarinha. Manda-me preparar alguma cousa para jantar... Venho morto de fome e de sono.

Clarinha — Pode dormir estes dois dias... Amanhã temos um passeio ajustado para a Cascatinha; a casa fica bem sossegada. Ah! Guarda-me esta chave! Não perca!

Henrique — Que passeio é esse tão fora de propósito?

Clarinha — Já convidei Bela, o tio Siqueira, e o Senhor Sales. Cuidei que não viesse hoje.

Henrique Se eu soubesse disso decerto que não vinha cá.

Clarinha — Foi pena!... Quando quiser, chame Augusto e venha jantar. (Sai correndo, e deixa o lenço com o bilhete de Sales, que Henrique apanha)

CENA X

Miranda, Henrique, Isabel e Iaiá

(Alves despede-se no fundo e sai. Miranda dirige-se a Henrique, enquanto Isabel recebe de Rita a menina e senta-se com ela à porta)

Isabel (a Rita) — Podes ir. (A Iaiá) Vamos ver papai!... Minha filha há de dizer que teve muitas saudades de Papai! Diga sim! Para Mamãe lhe querer bem!...

Miranda (Vendo o papel que Henrique lhe apresenta) — Que papel é este?

Henrique — Leia! (Isabel atende)

Miranda — Está tão escuro já!... (Lendo) "Se me ama.. espere-me ao escurecer... na...

Henrique — Na cabana do jardim!... Ah!... (Aponta)

Miranda — Mas que é isto?

Henrique — Uma carta de amor! Não vê?

Miranda — Onde a achaste?

Henrique — Neste lugar: ela deixou-a cair quando saiu!

Miranda — Ela quem?

Henrique — Não adivinha?... Minha mulher!

Miranda — É impossível, Henrique!

Henrique — O seu lenço, veja.

Miranda — Conheces esta letra?

Henrique — Perfeitamente! É do Sales. (Isabel corre para a casa)

CENA XI

Henrique e Miranda

Miranda — Do Sales?...

Henrique — É verdade!... Um ente desprezível!

Miranda — Esta carta será realmente para tua mulher, Henrique... Quem sabe!

Henrique — Eu vi-a cair. Ela a tinha no seio.

Miranda — Que fatalidade, meu Deus!

Henrique — Se ouvisses o que me dizia há pouco, não duvidarias. Traía-se sem querer... O nome desse homem lhe vinha constantemente aos lábios! A infame!... Cuspia-me na face a desonra!... Mas enganou-se! (Deita dois quartos de bala nos canos da espingarda)

Miranda — Que vais fazer?

Henrique — O miserável não tarda!... Se ele vier... Se o esperar... Tenho dois tiros e a minha honra salva!

Miranda — A honra não se discute!... Mas, Henrique, tens a certeza de que tua mulher seja criminosa?

Henrique — E estas provas?

Miranda — Não bastam.

Henrique — E se ela vier?

Miranda — Ainda assim! Pode não ser criminosa; pode cometer apenas uma falta, uma falta bem grave não nego! Porém a tua consciência está calma e tranqüila neste momento?... Não te acusa ela de teres deixado entregue às suas próprias forças sem apoio e sem proteção a virtude de uma menina inexperiente?...

Responde! Se cumpriste o teu dever, cruzo os braços e calo-me.

Henrique — Não há razão que justifique semelhante falta, meu tio!

Miranda — Decerto nada a justifica. Mas qual é a razão que justifica o marido que trai seus deveres?

Henrique — Há uma grande diferença...

Miranda — Sei o que pretendes dizer! Não é dessa fidelidade material do homem, que eu falo. O nosso grande dever é o de proteger e fazer a felicidade da mulher que nos sacrificou tudo, que é a mãe de nossos filhos, e a companheira inseparável da nossa existência. Como procedemos nós depois que passam os primeiros gozos de um amor partilhado? Voltamos às ocupações habituais. No nosso orgulho de homens, entendemos que a inteligência da mulher não pode acompanhar-nos nessa porção mais importante de nossa vida, e só deve ocupar-se dos arranjos domésticos, das modas e dos bailes. Deixamos no isolamento esses entes fracos a quem arrancamos da casa de seus pais, às festas da família, à ternura materna, às afeições dos seus!... Gastos pelos amores fáceis nem um se lembra que a alma, ainda virgem, de sua mulher, tem necessidade de viver!... Esquecemos enfim o tesouro que nos foi confiado, e cujo valor só sentimos nos momentos de sua perda!

Henrique — Nunca deixei de amar Clarinha... Tinha toda a confiança nela, e supunha que era feliz...

(continua...)

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