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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Aquele que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer, respondeu o escudeiro.

— Ah! por que não dizíeis isto logo? 

— Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos que ver. 

— Venha isso, acudiu Bento Simões, que já me enfastio de atirar às pacas e porcos do mato. 

— E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras de pólvora? perguntou Vasco Afonso. 

— Tem que saber isso? Quem, senão os índios, nos dão esta folia? Loredano ergueu a cabeça. 

— Que histórias contais ai? Supondes que os índios nos atacarão? perguntou ele. 

— Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a chamusco, exclamou Martim Vaz. 

A presença de Aires Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos aventureiros, fez com que fossem uns após outros desamparando a mesa, e deixassem o escudeiro na companhia dos canjirões e escudelas. 

Loredano, levantando-se, fez um gesto a Rui Soeiro e a Bento Simões; e os três seguiram juntos até ao meio do terreiro; o italiano murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra: 

— Amanhã! 

Depois, como se nada se tivesse passado entre eles, os dois aventureiros seguiram cada um de seu lado, e deixaram Loredano continuar o seu caminho até à beira do precipício. 

Do lado oposto, o italiano viu refletir-se sobre as árvores o tênue reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecília, cujas janelas não podia distinguir por causa do ângulo que formava a esplanada. 

Aí esperou. 

Álvaro, deixando Cecília, voltara triste e sentido da recusa que sofrera, embora o consolasse a sua última palavra, e sobretudo o sorriso que a acompanhou. 

Não se podia resignar à perda desse prazer infinito com que havia contado, de ver nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que lhe dissesse que pensava nele. Tinha afagado tanto essa idéia, tinha vivido tanto tempo dela, que arrancá-la do seu espírito seria um sofrimento cruel. 

Enquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou um projeto e tomou uma resolução. Meteu numa pequena bolsa de seda uma caixinha de jóias; e envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecília. 

Também ele viu a luz das janelas se refletir defronte; e esperou que a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse. 

Ao tempo que isto se passava, Peri, o índio que já conhecemos, tinha chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um tesouro. 

No valado que se estendia à beira do rio, deixou o seu prisioneiro, depois de o ter metido numa espécie de tronco que arranjou, curvando um galho de árvore. Subiu então à esplanada, e foi nesta ocasião que a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir, foi a maneira por que saíra quase logo. 

Havia dois dias que não via sua senhora, que não recebia dela uma ordem, que não adivinhava um desejo seu para satisfazê-lo imediatamente. 

O primeiro pensamento do índio, foi pois ver Cecília, ou ao menos a sua sombra; entrando na cabana percebeu, como os outros, a réstia de luz que coava entre as cortinas da janela. Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio à choça, e por um desses movimentos ágeis que lhe eram tão naturais, de um salto segurou-se ao galho de um óleo 19 gigante que, elevando-se sobre a encosta fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa. 

Durante um momento o índio pairou sobre o abismo, balançando-se no galho fraco que o sustinha; depois equilibrou-se e continuou essa viagem aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho marinheiro caminha sobre as gáveas e sobre as enxárcias. 

Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da árvore e, escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro das janelas de Cecília cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que Loredano chegava de um lado e Álvaro de outro, e se colocavam igualmente a alguns passos. 

A princípio, Peri só teve olhos para ver o que se passava dentro do aposento: Cecília examinava ainda por uma última vez as encomendas que lhe haviam chegado do Rio de Janeiro. 

Nessa muda contemplação, o índio esqueceu tudo. Que lhe importava o precipício que se abria a seus pés para tragá-lo ao menor movimento, e sobre o qual planava num ramo fraco que vergava e se podia partir a todo o instante! 

Era feliz: tinha visto sua senhora; ela estava alegre, contente e satisfeita; podia ir dormir e repousar. 

Uma lembrança triste porem o assaltou; vendo os lindos objetos que a moça recebera, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha primores como aqueles para ofertar-lhe. 

O pobre selvagem ergueu os olhos ao céu num assomo de desespero, como para ver se, colocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas da árvore, poderia estender a mão e colher estrelas que deitasse aos pés de Cecília. 

Assim, era esse o ponto onde se irradiavam aquelas três linhas partidas de pontos tão diferentes. De maneira por que estavam colocados, formavam um verdadeiro triângulo, cujo centro era a janela frouxamente iluminada. 

(continua...)

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