Por José de Alencar (1873)
Não obstante as negaças da menina, traçara o rapaz o seu desenho, e aproveitando uma vez em que Marta se mostrava mais, a contemplava com olhos de amante e artista, para dar os últimos toques à figura.
No mais absorto, assustou-o certo ruído cavernoso, semelhante ao ornejo de um jumento, e que não era senão o estrépito da pitada do Sebastião Ferreira, ecoando pelas cavernas ou fossas nasais. Achou-se então o rapaz em face do carão descarnado e impassível do tabelião, que lhe estava observando o pasmo.
— Que faz você aí embasbacado, moço? perguntou o tabelião.
Teve o Ivo um estremeção, que ia dando em terra com o bacamarte. Felizmente segurou-o a tempo, quando ele escorregava pela aba da mesa.
— Estava à espera do senhor tabelião, respondeu Ivo aproveitando a primeira desculpa que lhe acudiu.
— À minha espera!... Não está má!
— Pois não é Vossa Mercê que dita?
— Ditar o que, moço, se já lhe apontei aí a escritura...
— Ah! é para copiar deste livro?...
— Então, moço! E avie-se, que isso de lesmas, não servem cá para escreventes. Quer-se sujeito despachado!
Receoso de ser recambiado do cartório, arranjou-se o Ivo para dar conta da tarefa, e outra vez com a pena embutida nos três dedos, abriu o corte da primeira maiúscula. Mas aí estava a dificuldade. Que letra lançaria ele se não conseguira destrinçar ainda as rabiscas do tabelião?
Relanceou para a porta um olhar de desespero; mas já a fresta se havia cerrado, e não viu ali para consolá-lo em sua aflição nem sequer o olhar à sorrelfa, que poucos momentos antes o viera desinquietar. Com o espirro paterno, Marta fugira espavorida.
Nestas estreitas sentiu o rapaz no peito do gibão o amarrotar de um papel; e indagando da novidade, descobriu que era uma folha de almaço a sair do bacamarte, e justamente pelo verso da maldita escritura que estava condenado a copiar sem entender.
Examinando o manuscrito, pareceu-lhe pelo jeito, ser um traslado da tal abstrusa escritura, começado a tirar por algum escrevente do cartório. Sem mais e à ventura, pôs mãos à obra, e com pouco estendeu sobre o papel todo o traslado em um bastardinho bem lançado e do mais lindo talho.
Levantou-se o rapaz, e por cima da mesa apresentou a cópia ao tabelião, mas vendo que este não se distraía lá da sua tarefa, meteu-lha por diante do nariz.
— Hem!... Então já acabou, moço?
— Veja o senhor tabelião!
— Está bom; já se vai desasnando! Ora vejamos lá isso!
Fincou bem os óculos no cavalete, encrespou o sobrolho sobre a testa, enfiou a carranca, e empinando-se no tamborete, esticou a folha de papel aberta a dois palmos do nariz.
Imediatamente a cara tabelioa decompôs-se toda, e embrulhou-se numa careta displicente, como uma bexiga assoprada, quando lhe falta o ar e se enruga.
O Ivo ficou frio.
— Sempre arranha no ofício; mas olhe, moço, esta letra casquilha e delambida pode servir lá para iluminações e grifarias; lá no foro não se admitem estas desenvolturas. Está entendendo?... Quer-se um talhe de letra corrida, e que seja composta e sisuda como se requer nas cousas de justiça. Uma escrita à-toa como esta, que aí todo o gato e sapato pode ler sem titubear, não vai bem nuns autos. Isto de papel forense, nem todos lhe metem o dente; é preciso ter prática. Faça-me uma letra pelo molde da minha, e vamos bem. É deixar correr a pena!
Ouviu o Ivo com espanto esta lição de caligrafia forense, e revoltado nele o sentimento do belo, ia protestar, quando pareceu-lhe que de novo entreabria-se a fresta da porta, e tanto bastou para dar-lhe a força de conter-se. Não eram aqueles gregotins, que o obrigavam a fazer e a decifrar, os elos que o prendiam à casa de Marta?
No dia seguinte tomou o Ivo conta da mesa de cedro em que o encontramos.
Ficava-lhe a dois passos a mesa de um outro escrevente, de nome Sabino, moço como ele, e que não se conformava com a presença desse intruso, pois vinha disputar-lhe o lugar de calouro do cartório, que ele até ali ocupara sem rival.
Tinha o Sabino vinte anos, e como esses vermes que se formam no coco, e tomam-lhe a feição e o gosto, parecia o rapaz um fato concebido e criado no cartório. Borrado de tinta e poento como uns autos, a cútis era de almaço amarrotado, os beiços arregaçados como as beiras do protocolo, e a cabeça arrepiada que nem as abas de baeta preta que desciam da mesa.
Quando se dirigia a seu canto, percebeu Ivo o olhar com que o examinava o colega, e conheceu que ia ter nele um amolador. Felizmente dividia-os um pano de prateleira, que interceptaria a espionagem.
XIII
UMA EDIÇÃO ANTIGA DO PRELADO MODERNO
Ao tempo destes acontecimentos, cuja importância talvez escape ao leitor indiferente, que não perscruta os arcanos da história, nem se ocupa do encadeamento dos fatos, ainda a leal cidade de São Sebastião não tinha bispo, e muito menos capelão-mor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.