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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

HENRIQUETA - Pois bem, eu lhe digo. Meu pai deve a esse homem, e julgou que não podia recusar-lhe a minha mão, apesar das minhas instâncias. Lutei um mês inteiro, Eduardo, mas lutei só; e uma mulher é sempre fraca, sobretudo quando se exige dela um sacrifício!

EDUARDO - Tem razão; se lutássemos juntos, talvez...

HENRIQUETA - Oh! Então eu defenderia a nossa felicidade; mas lutar para conservar apenas uma triste esperança!

CENA XVIII

Os mesmos, VASCONCELOS, AZEVEDO, D. MARIA VASCONCELOS - Vamos, menina! É tarde.

HENRIQUETA - Sim, meu pai. (A meia voz.) Adeus, Eduardo! Até!...

EDUARDO - Até sempre, Henriqueta!

HENRIQUETA - Carlotinha, meu chapéu?

CARLOTINHA - Toma! Estás mais contentezinha?

HENRIQUETA - Maliciosa!... (Sobem.)

AZEVEDO - Meu sogro, dispensa-me acompanhá-lo? Um homem não deve andar agarrado à sua fiancée. É mauvais genre.

HENRIQUETA - Não se incomode. D. Maria, boa noite! Doutor... (Sobem.)

EDUARDO - Uma palavra, Azevedo.

AZEVEDO - Às tuas ordena.

EDUARDO - Quanto te deve o Sr. Vasconcelos?

AZEVEDO - Uma bagatela! Dez contos de réis!

EDUARDO - Ah!

AZEVEDO - Por que perguntas?

EDUARDO - Porque desejava saber quanto custa uma mulher em primeira mão.

AZEVEDO (rindo). - Vraiment!

ATO IV

Em casa de EDUARDO. Sala de visitas.

CENA PRIMEIRA

EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA, PEDRO (CARLOTINHA na janela; PEDRO sacudindo os tapetes.)

CARLOTINHA (baixo, a PEDRO) - Não passará ainda hoje?

PEDRO - Não sei, nhanhã.

CARLOTINHA - Está doente?... Zangado comigo?... Por quê?

PEDRO - Não se importe mais com ele! Há tanto moço bonito! Sr. Azevedo... (PEDRO vai colocar o tapete e sai.)

CENA II

EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA

EDUARDO - Quando eu lhe digo que espere, Henriqueta, é porque estou convencido de que há um meio de desfazer esse casamento sem a menor humilhação para seu pai.

HENRIQUETA - E esse meio qual é?

EDUARDO - Não lhe posso dizer; é meu segredo.

HENRIQUETA - Ah! Tem segredos para mim?

EDUARDO - É injusta fazendo-me essa exprobração, Henriqueta. Se não lhe falo francamente, é porque não desejo que partilhe, ainda mesmo em pensamento, os desgostos, as contrariedades que eu há um mês tenho sofrido para conseguir esse meio de que lhe falei.

HENRIQUETA - Mas, Eduardo, uma parte dessas contrariedades me pertence, e por dois títulos; porque se trata de mim, e porque nos... estimamos!

EDUARDO - Porque nos amamos: é verdade! Mas nessa partilha igual que fazem duas almas da sua dor e do seu prazer, há a diferença das forças. À mulher cabe a parte do consolo, ou da ternura; ao homem, a parte da coragem e do trabalho.

HENRIQUETA - Então eu não tenho o direito de fazer também alguma coisa para a nossa felicidade?

EDUARDO - Não disse isto! Faz muito!

HENRIQUETA - Como? Se toma para si tudo e não me quer deixar nem mesmo a metade dos cuidados?

EDUARDO - E quem me dá força para prosseguir e a fé para trabalhar? Não são esses momentos que todos os dias passamos juntos aqui ou em sua casa?

HENRIQUETA - Assim, não me quer dizer qual é essa esperança? 

EDUARDO - Não desejo afligi-la com idéias mesquinhas. Os homens inventaram certas coisas, como os algarismos, o dinheiro e o cálculo, que não devem preocupar o espírito das senhoras.

HENRIQUETA - Porque somos nós tão fracas de inteligência?... 

EDUARDO - Não é por isso; é porque tiram-lhes o perfume e a poesia.

HENRIQUETA - Isso é muito bonito, mas não me diz o que desejo saber.

EDUARDO - O quê?

HENRIQUETA - O meio por que há de fazer o meu casamento.

EDUARDO - Ainda insiste; pois bem, hoje mesmo lhe direi.

HENRIQUETA - Sim?

EDUARDO - Talvez daqui a uma hora.

CARLOTINHA - Mano, aí entrou uma pessoa, que julgo procurar por você.

EDUARDO - Há de ser naturalmente o negociante que espero.

CENA III

Os mesmos, PEDRO

PEDRO - Está ai o homem que escreveu aquela carta; quer falar ao senhor.

EDUARDO - Manda-o entrar para o meu gabinete. 

PEDRO (baixo, a CARLOTINHA) - Nhanhã Carlotinha está triste!... Hi!...

EDUARDO - Até logo, Henriqueta.

HENRIQUETA - Já! Que vai fazer?

EDUARDO - Concluir um pequeno negócio; ao mesmo tempo realizar um pensamento que me foi inspirado pelo nosso amor.

HENRIQUETA - Como?

EDUARDO - Quero solenizar a nossa felicidade, Henriqueta, exercendo um dos mais belos direitos que tem o homem na nossa sociedade.

HENRIQUETA - Qual?

ÊDUARDO - O direito de dar a liberdade!

HENRIQUETA - Não entendo.

EDUARDO - Dir-lhe-ei tudo logo.

HENRIQUETA - Volte, Sim?

EDUARDO - Demorar-me-ei apenas o tempo de assinar um papel e escrever algumas linhas.

 

CENA IV

HENRIQUETA, CARLOTINHA

HENRIQUETA - Sabes, Carlotinha, tenho uma queixa de ti.

CARLOTINHA - De mim? Que te fiz eu, má?

HENRIQUETA - Há um mês espero que tu me contes uma coisa, e ainda não me disseste uma palavra.

CARLOTINHA - De quê? Não sei.

HENRIQUETA - Do teu segredo; não te confiei o meu?

CARLOTINHA - Ah! Quem te disse?

HENRIQUETA - Eduardo.

CARLOTINHA - Não acredites, ele estava gracejando.

HENRIQUETA - Não, tu amas, Carlotinha, e nunca me falas dos teus sonhos, de tuas esperanças. Não sou eu mais tua amiga?

CARLOTINHA - Pois duvidas?

HENRIQUETA - Se fosses, não me ocultarias o que sentes.

(continua...)

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