Por José de Alencar (1870)
Realmente ele não podia escolher melhor. A agitação daquela dança rápida, sem pausa; a confusão que os pares criavam de propósito para aumentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropelo tinham por tal forma sacudido o espírito de Leopoldo, que as idéias e recordações tristes lhe caíram, como as folhas secas de uma árvore, abalada pelo vento rijo do outono.
Sentiu o coração vazio, porém tranqüilo; o prazer vivo e cintilante daquela reunião, apenas roçava-lhe pela superfície; não penetrava, mas também já não transudavam-lhe do íntimo as amarguras de que nos últimos dias se tinha saturado.
De repente operou-se na perspectiva da sala uma transformação inesperada. Amélia entrara; e sua graça difundiu-se com um influxo celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na irradiação de seus olhares.
Leopoldo embebeu-se naquela suave aparição, como da primeira vez que a vira, mas para percorrer em um ápice, as fases de seu amor, e cair de novo na esmagadora decepção.
De repente aquela estátua luminosa escureceu a seus olhos deixando apenas um resíduo negro: esqueleto calcinado que arrastava uma deformidade. Debalde Amélia se ostentava no fulgor de sua beleza, toucada pelos primeiros arrebóis do amor; debalde as ondulações de seu corpo debuxavam formas encantadoras, e o sorriso de seus lábios destilava uma fragrância mística de beijos puros; os olhos de Leopoldo não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido roçagante, sua vista fitava-se implacável no pé monstruoso que lhe esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.
Todos os encantos dessa criatura, ele os despia de seu manto sedutor e dissecava-os com frio rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha da resistência que opunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um esforço supremo para disfarçar o aleijão, o sorriso gracioso um enleio para prender os olhos estranhos, não permitindo que eles se abaixassem até à fímbria do vestido.
E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se tinha cravado na orla da saia elegante, donde não havia forças para arrancá-lo.
Amélia sentiu esse olhar cruciante e estremeceu, tomada de um vago terror. Imediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, procurou disfarçar; mas em vão: o olhar do moço continuava fito no mesmo ponto e produzia nela uma sensação incômoda.
— É D. Amélia, filha de um negociante, chamado Sales. Não conhece?
Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que sentandose a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.
— Não, minha senhora.
— Então vou apresentá-lo.
— Obrigado, D. Clementina; depois.
— Não acha muito galante?
Leopoldo hesitou:
— Oh! muito! . . .
Viera-lhe nessa ocasião o mesmo ímpeto que sentem de ordinário os amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da mulher que os faz sofrer. É uma reação natural do coração; Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de ofendê-la. A culpa de amá-la era sua, e não dela.
Aproveitou um momento de distração da dona da casa, para tomar o chapéu e esquivar-se sem que o percebessem.
Amélia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na porta por onde acabava o moço de sair. Quando, passado um instante, caiu em si, ficou surpreendida. Que tinha ela com aquele desconhecido?
Ao chegar, vendo o rosto pálido e os olhos profundos, que tão desagradável impressão haviam deixado em seu espírito, a moça havia sentido um mal-estar íntimo. Vinha com a alma cheia das primeiras delícias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de Horácio. A presença de Leopoldo foi um travo.
Mas também para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horácio?
Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triunfo, e ver humilde e abatido a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difícil e esquiva, embora lhe custasse o sacrifício dos momentos agradáveis que podia passar junto de Horácio.
A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incomodara, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausência do mancebo.
A princípio havia ali uma pessoa demais; agora faltava alguma coisa. Se não era um homem, era uma curiosidade, uma emoção.
— Amélia!
A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
— Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela sala à busca de alguém.
— Não o vejo agora.
— Quem é?
— O Castro... Conhece?...
— Não, senhora.
— Querem ver que já se retirou?
Amélia pôde reter o monossílabo que ia cair-lhe do lábio, confirmando a suposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu desconhecido.
— Então ele me acha bonita?
— O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.