Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
DIONÍSIA (Cantando dentro: lundu) – Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
CINCINATO (Canta.) – Caído e enrabichado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha,
Vamos fazer verão.
DIONÍSIA (Rindo-se dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
CINCINATO (Canta.) – Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia,
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
DIONÍSIA (Canta dentro.) – Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
CINCINATO (Canta.) – Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
DIONÍSIA (Dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Rindo-se.) mamãe, já viu moço mais engraçado! (Cincinato vai para a frente, mas observa.)
GERTRUDES (Dentro.) – Que te importa o moço?... tens às vezes modos que não parecem de uma menina recatada! (Cincinato põe a mão na boca para conter o riso e vendo que Dionísia vem, tira a carteira e põe-se a contar o dinheiro.) DIONÍSIA (Chegando.) – Ah! era o sr. Cincinato! que bela voz!
CINCINATO – Minha linda senhora... a sua voz é que é estupenda mesmo quando não canta; mas devo confessar que neste momento me atrapalhou!
DIONÍSIA – Como?...
CINCINATO – Fez-me errar a conta... eu dava balanço no capital e nos lucros desta noite e já não sei, se estava em cinco ou em sete contos... é claro que com a senhora a meu lado não me é possível somar... e ainda menos poderei multiplicar o dinheiro... diminuir há de ser fácil, não acha?... (Guarda o dinheiro que Dionísia olhava.)
DIONÍSIA – O senhor é original.
CINCINATO – Dizem isso: mas eu não creio. Que formosa moça!... (Toma-lhe a mão.) Que mãozinha de cetim! (Beija-a.)
DIONÍSIA – Deveras o senhor ama-me? ...
CINCINATO – Com furiosa paixão; eu, porém, sou franco e nítido: não sei alambicar finezas como o feliz Adriano... vou logo direito ao coração, e ao sentimento... encantadora Dionísia! queres ajudar-me a devorar em poucas semanas o miolo desta carteira, e mais três dúzias de contos de réis que tenho depositados no tesouro?... é logo sim ou não para poupar emoções... sim ou não, andorinha?...
DIONÍSIA – O senhor ou brilha pela franqueza, ou perde pela zombaria.
Falemos seriamente: que pensa de mim, e como é o seu amor?...
CINCINATO – Penso que tens enganado a cinqüenta, e que contas comigo para enganar a cinqüenta e um. Eu te adoro apesar disso; mas não respondo pela constância do meu amor... fica a teu cuidado perpetuá-la.
DIONÍSIA – Mas o senhor fala ainda melhor do que canta!
CINCINATO – É que conheço as claves, e canto conforme a letra, e o espírito
da música. Proponho-te um acordo filosófico e sentimental: tu amar-me-ás apaixonadamente enquanto eu tiver dinheiro para gastar, ou não te der o vento para outro lado; eu te adorarei, enquanto não me esfriar esta paixão eterna: em caso de arrependimento de qualquer dos dois... bons dias ou boas noites, e viva a liberdade!
DIONÍSIA (Pondo-lhe a mão no ombro.) – És um anjo, meu Cincinato!... UMA VOZ (Dentro.) – Isto é escandaloso!... (Sussurro.)
CINCINATO – Aquilo não é conosco; podes tranqüilizar-te.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu jogo franco e liso... cem mil réis!
CINCINATO – Aquilo sim, é comigo; franco e liso.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Aceito!
CINCINATO – E tu aceitas, ladrão?
DIONÍSIA – À meia-noite batemos as asas!
CINCINATO – E saudades a Adriano!
DIONÍSIA – Ora!... que bata a outra porta... é um tolo. Adeus! até meia-noite...
devo tomar algumas disposições... estou doida por ti. Meu Quebra-louça; conta comigo. (Dá a mão a Cincinato e vai-se.)
CENA IV
CINCINATO, que acompanha DIONÍSIA até a porta, e volta coçando a cabeça, como contrariado, e DEMÉTRIO.
DEMÉTRIO – Esta casa é um covil de larápios! depenaram-me.
CINCINATO – E estão para me depenar: consola-te.
DEMÉTRIO – Acho-me em singular e doloroso embaraço...
CINCINATO – E eu!... nem fazes idéia... estou com uma corda ao pescoço...
DEMÉTRIO – Perdi quatrocentos mil réis...
CINCINATO – E eu daria oitocentos para livrar-me de ganhar certa partida...
DEMÉTRIO – Sofri indigna afronta...
CINCINATO – E eu acho-me dez mil vezes mais afrontado... tenho um pesadelo horrível...
DEMÉTRIO – Quis jogar sob palavra e torceram-me o nariz! foi um insulto!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!...
Cincinato... empresta-me duzentos mil réis? antes da ceia tos restituo.
CINCINATO – Prodígio, não me fales em dinheiro: é coisa que me irrita os nervos; olha, na primeira todos caem; na segunda, só os tolos; na terceira, só os doidos: jurei não passar contigo do segundo grau.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.