Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo o toque das dez horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a essa hora que o Marquês costumava sair. Chegou, bateu à porta que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia entrando, o Tenente sentiu leve ruído... voltou a chave, fingindo ter trancado a porta e esperou...
Quase logo a ponta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.
O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando com os dentes cerrados:
- Sr. Vice-Rei!...
- Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês; há dois homens; mas, se o achasmelhor, há o falso Amotinado a sair pela porta do muro quando o verdadeiro entra pela porta da casa. E vê lá! não ofendas aquela que protejo!...
O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva estéril.
Um vice-rei deveras fazia medo.
Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.
O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze maldizentes.
E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.
O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com ardor a patente de capitão.
O Marquês respondeu-lhe:
- Pobre Amotinado!... os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa e eu não posso pagá-lo senão com o meu dinheiro. Vejo que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.
E foi buscá-la, e deu-lha, e o miserável aceitou-a.
O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.
A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.
Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.
Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha-brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.
Acresceu logo depois a pretensão de alguns cônegos e de gente devota, que propunham a denominação de Rua do Cabido ou Rua da Sé Nova, em honra da Sé Nova que então, embora já desanimadamente, se construía no largo ainda desse nome, e onde se abria a Rua do Padre Homem da Costa.
E quando mais fervente se achava esta contenda, chegou de Lisboa nomeado ouvidor da comarca para o Rio de Janeiro o Dr. Francisco Berquó da Silveira (da família Berquó da qual foi membro ulteriormente o Marquês de Cantagalo, amigo dedicadíssimo e estimado de D. Pedro I), e logo ou pouco depois de sua chegada à capital do Brasil colônia foi morar em 1780 à Rua do Padre Homem da Costa, na casa de sobrado, que é hoje de n.º 62-A, e ocupada pela loja de papéis pintados do Sr. Anacoreta.
Um ouvidor de comarca era naquele tempo muito mais do que um simples mortal, era um potestade, que o povo respeitava mais do que hoje respeita ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e não havia quem deixasse de pôr-se de chapéu na mão quando ele passava.
Desde que o Dr. Berquó estabeleceu sua residência à Rua do Padre Homem da Costa; desfizeram-se as pretensões denominativas de Rua do Amotinado e do Cabido, e todos de acordo a chamaram Rua do Ouvidor.
E, portanto, o defunto Padre Homem da Costa, muito depois de morto, deu em 1780 à costa, não nos baixios, mas nas alturas do ouvidor da comarca.
1780!... não esqueçam a data, que marca o começo da época que tinha de ser tão gloriosa para a rua por excelência poliglota e enciclopédica, labirinto, vulcão, mina de ouro e abismo de fortunas, rainha dos postiços e das artes arteiras, fonte de belos sonhos, armadilha de enganos, et coetera, et coetera, et coetera, somando tudo - Torre de Babel.
Principiara sendo - Desvio - desvio do caminho reto, e essa origem não foi lisonjeira.
Passara de Desvio à Rua de Aleixo Manoel, plebeu raso, que, embora só de fidalgos, era barbeiro, segundo os meus velhos manuscritos.
Subiu, tomou solidéu e batina, entrou para a categoria do clero, elevando-se à Rua do Padre Homem da Costa.
E enfim exaltou-se, mostrando-se com a toga da magistratura em sua nova e última denominação de Rua do Ouvidor.
E notem: o ouvidor chamava-se Berquó, nome cujas letras combinadas de outro modo formam o presente do indicativo do verbo quebrar, isto é - quebro, o que quer dizer: não resisto, rendo-me.
O Berquó, o tal ouvidor, tinha pois nas letras do seu nome cabalisticamente encerrado o segredo dos encantos da rua, a que ninguém resiste, a que todos se rendem; porque todos quebram, e até se requebram escravos do seu poder.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.