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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Eu devia esquecer-me de mim mesmo, embevecendo-me na contemplação de tantos prodígios; senti porém perto de mim, em torno de mim, passando junto de mim, indo e vindo, outra maravilha, que os homens vêem em toda parte, a todas as horas, e que nunca se satisfazem de admirar, e de amar; ouvi o ruído do arrastar de vestido, senti doces e sutis aromas deixados em leve rasto, tocaram-me os ouvidos os sons murmurantes de vozes argentinas, em uma palavra, senti a mulher e não vi mais nem serras, nem ondas, nem natureza grandiosa, nem arte nascente, nem florestas, nem cidades; senti perto de mim a mulher, e, olvidando tudo mais, voltei-me para contemplar a mulher.

XIII

Não era uma, eram cem as senhoras que passavam e que estavam no terraço.

Sentei-me em um dos bancos de mármore e deixei fixada a minha luneta.

Mais de vinte jovens senhoras me pareceram bonitas; defronte de mim porém estava sentada junto de um venerando ancião a mais formosa donzela.

Vestira-se de branco! tinha os cabelos negros, os olhos pretos, grandes e suavíssimos, eram olhos que não abrasavam, mas que inundavam de doçura, de luz branda, de enfeitiçadas delicias o coração do homem que lhe merecia um olhar; tinha no rosto a palidez enlevadora, que não indica sofrimento e atesta fina sensibilidade: o seu corpo era esbelto, e sua cintura de proporções delicadíssimas; trazia na mão pequenina e branca um leque de madrepérola com que se abanava distraída, absorta na contemplação do mar, ou divagando pelos mundos da imaginação; levantou-se a convite do ancião, sem dúvida seu pai, e com ele passeou ao longo do terraço; no fim de alguns minutos tornou a sentar-se no mesmo lugar em que estivera.

Era indizível a graça do seu andar tão suave, como o deslizar da nuvem pela face do horizonte.

A donzela pálida afigurou-se-me revelação de todas as perfeições humanas completando um portento de formosura. O rosto é o espelho da alma, a graça, dom do céu: a donzela pálida era necessariamente 0 símbolo do amor e da pureza dos anjos.

O meu coração palpitava transportado de admiração, e já dominado pelo poder miraculoso de tanta beleza.

—Como está hoje arrebatadora Dona Rosinha! disse um mancebo, falando a outro perto de mim.

Ela chamava-se Rosa; tinha o nome da rainha das flores.

—Está hoje como sempre; mas em que cismará ela?... provavelmente em coisa nenhuma: quer que se acredite que tem horas de embevecimento poético.

—Não; ela fez vinte anos ontem, e está sem dúvida cismando nos motivos por que ainda não se casou...

Revoltei-me contra os dois sacrílegos, apartei-me deles com sentimento de aversão.

Eu tinha observado a formosa jovem, lançando-lhe vistas repetidas, mas passageiras, receoso de sobressaltar o seu virginal pudor; não pude porém resistir por mais tempo ao ardente empenho da adoração da sua alma, e fitei nela a minha luneta por mais de três. minutos.

A donzela apercebeu-se da minha contemplação e por acaso ou de propósito deu a seu corpo flexível uma atitude de gracioso abandono, que me deixava apreciar todos os encantos da sua figura, inclinando langorosa a cabeça para o ombro de seu pai, e esquecendo os olhos no céu.

Ah! foi para mim um abismo de magias, um arrebatamento do espírito irresistível perdição de toda a minha liberdade durante três minutos. . .

E no fim de três minutos o coração da donzela se patenteou a meus olhos, e os segredos de sua alma se revelaram à visão do mal.

(continua...)

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