Por Gregório de Matos (1696)
1 Por gentil-homem vos tendes,
por valente, e namorado,
que a um Fernandes não é dado,
e cai melhor em um Mendes:
e pois as prendas retendes,
que em boa filosofia
nenhuma em vós caberia,
tão grande amor me deveis,
que porque vós o dizeis,
vo-lo creio em cortesia.
2 Só por cerimônia urbana
me resolvera eu a crer,
que podeis formoso ser
tendo olhos de porcelana:
se vo-lo diz vossa mana
(que se a tendes, preta é)
por vos manter nessa fé,
sabei, que vos troca as prosas,
porque são mui mentirosas
as Negras de Marapé.
3 Que sois valente, bem creio,
que esses pulsos, essas pernas,
e o grosso dessas cavernas
me estão dizendo "temei-o":
eu vos creio, e vos recreio,
não faleis mais nisso: tá,
porque em rigor, claro está,
que um valentão D. Ortis
me assusta quando mo diz,
e outra vez, quando me dá.
4 Mas quanto a ser namorado,
nisso consiste a questão,
que esta vez vos vou à mão,
como quem vos vai ao dado:
todo o Americano Estado,
que digo? este mundo inteiro
namorei eu tão primeiro,
que nisto de namorar
podeis vós comigo estar
a soldada de escudeiro.
5 Sou namorado de chapa,
e de idade pueril
de Portugal, e Brasil
tenho namorado o mapa:
nenhuma cara me escapa,
e em todo o rosto me embarco,
e vós no salgado charco
(posto que em vãos pensamentos)
sempre andais bebendo os ventos,
que é bom para o vosso barco.
CELEBRA A CARREYRA QUE DEO HUM CABOCLO A HUM SUGEYTO, QUE ACHOU
COM HUMA NEGRINHA ANGOLLA, COM QUEM ELLE FALAVA.
1 Arre lá co Aricobé,
como ele é corredor,
porque fiz co pecador,
o que já com São Tomé:
o pobre teve bom pé,
e esta parte não é má,
pois se ao chinelo não dá,
e no fugir não insiste,
creio, que diria o triste,
se isto assim é, arre lá.
2 O pobrete inadvertido
de avançada tão medonha,
diz, que não tendo vergonha,
só então se viu corrido:
e sendo a pulso seguido
do cioso Paiaiá,
sem dizer cobé, nem pá,
gritava por toda a rua,
se te deixo a fêmea tua,
que me queres? arre lá.
3 Não deu por isto o Tapuia
cortesão do Santo Sé,
que apertava mais o pé,
só para Ihe dar na cuia:
vendo o pobre esta aleluia,
que tanto susto Ihe dá,
ajuntava a perna à pá
para mais veloz correr,
que quanto isto de morrer
faz mui mal cabelo cá.
4 Nada disto Ihe valeu,
nem o dar tanta passada,
porque quando nada nada
alguma cousa Ihe deu:
na fugida não perdeu,
mais que o que se falará:
se bem, que mais sentirá
que se diga em todo o ano,
que o Tapuia desumano
sabe mais do que cará.
5 O Frecheiro a pouco custo
dizia, porque é magano,
o cão livrou-se do dano,
mas não se livrou do susto:
irracionalmente injusto
o vulgo me chamará,
mas eu pouco se me dá,
porque no caso presente
quis, que conhecesse a gente,
se é gente o Barabauá.
6 Não é de beiço furado
o cabocolo maligno,
que me pareceu menino
só em ser demasiado:
se bem, que por ter gostado
do que qualquer gostará,
quem o desculpe, haverá,
no cometer este excesso,
que eu também morro (confesso)
por este có mangará.
7 Com que afagos a negrinha
ao pobrete trataria,
uma onde se Ihe ia,
e outra onda se Ihe vinha,
medrosa estava a pretinha,
que nunca a cor mudará,
e como não era má,
que a qualquer outra acontece,
não quis o pobre morresse
entre mil soluços cá.
8 Este gostinho roubou
o Tatu do Carapai,
pois sem dançar o chegai,
no pobrezinho chegou:
porque logo que os achou
um de lá, outro de cá,
disse a ambos arre lá,
na minha casa, velhaca,
vos tira cá o meu faca,
minha comer catucá.
9 A negra, que nisto estava,
já que fazer não sabia,
porque se de um gosto ria,
também de um susto chorava:
desta maneira gritava
"Paí na matá, a lá lá,
aqui sá tu mangalá,
saiba Deus e todo o mundo,
que me inguizolo mavundo
mazanha, mavunga, e má"
10 O Tapuia é mui valente,
pouco digo, valentão,
pois no centro do sertão
fez já fugir muita gente:
e se na ocasião presente
se diz, que costas virara
(cousa, em que qualquer repara)
é, pois que a discursar entro,
porque fora do seu centro
jamais cousa alguma pára.
11 Também diz, que se deu costas
já depois do susto feito
foi, porque certo sujeito
de o prender fazia apostas:
entre pergunta, e respostas
diz mais, que fugira só,
porque na garganta um nó
(que este bem cego seria)
se Ihe punha, quando ouvia
aripotá treminó.
12 Ao Cabocolete iníquo,
antes que em raiva se engafe
Ihe fez o cu tafe tafe,
e a bunda fez tico tico:
estava feito um Perico,
porque aqui, e ali se escancha,
sentindo-se muito a mancha,
de quando preso o levavam,
dos rapazes, que gritavam,
pois que é isso? vai na lancha!
A HUMAS FREYRAS OUE MANDÁRAM PERGUNTAR POR OCIOSIDADE AO POETA
A DIFINIÇÃO DO PRIAPO E ELLE LHES MANDOU DIFINIDO, E EXPLICADO NESTAS
DÉCIMAS.
1 Ei-lo vai desenfreado,
que quebrou na briga o freio,
todo vai de sangue cheio,
todo vai ensangüentado:
meteu-se na briga armado,
como quem nada receia
foi dar um golpe na veia,
deu outro também em si,
bem merece estar assi,
quem se mete em casa alheia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.