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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Parecia-lhe incrível, extraordinário, fora de toda a verdade, que um membro do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, autor de uma memória sobre os irmãos Pinzon, desembargador da Relação, não lesse os poetas do seu país. Era incrível. Mas o que ele estranhava ocultamente é que o desembargador não houvesse lido a paródia do "1-Juca-Pirama", que tantos elogios merecera da crítica nacional.

As outras pessoas ouviam interessadas o visconde de Santa Quitéria, bebendo-lhe as palavras, religiosamente fitos nos seus olhos.

O Dr. Condicional, porém, animado pelo desembargador e fingindo prestar atenção ao visconde, imobilizava os olhos sobre a esposa de Evaristo. Subitamente a presença dela o atraíra como um clarão que de repente se abrisse, mais forte que a luz do gás.

Ainda não havia reparado! Como é que se achava ali aquela mulher e ele — cego! — não lhe fizera as devidas cortesias? O que mais o impressionava era o ar triste de Adelaide, o tom magoado do seu rosto, a expressão recolhida e meiga dos olhos dela... Pobre senhora! Talvez algum drama íntimo, talvez algum desses episódios "lutuosos" de família, talvez... — quem sabe? — alguma dor oculta pungindo-lhe a ignorada existência... E à sua imaginação vinham casos de adultério, romances de amor infeliz, tragédias em que os maridos matavam as esposas, num formidável acesso de loucura; - suicídios por amor; namorados que faziam saltar os próprios miolos e raparigas que ingeriam veneno... horrores do coração humano! — e repetia mentalmente, sensibilizado por uma vaga apreensão que o punha nervoso:

— "Aquela senhora tem o que quer que seja!..."

Valdevino Manhães carregava de tintas sombrias o rosto de Adelaide, o rosto e a alma — embalado por seu natural pessimismo que ia até a negação de Deus e do Bem. Explicava tudo pela — fatalidade, e não podia ver uma pessoa triste que não dissesse logo: "Aí vai 'um desgraçado!" No fundo desse pessimismo havia, entretanto, uma compaixão pelo sofrimento alheio — compaixão que ele calculadamente escondia "para se mostrar superior às fraquezas humanas".

A natural expressão do rosto de Adelaide fazia-a mais triste do na verdade ela estava; seus olhos nunca se abriam completamente; eram olhos meigos, de uma vaga melancolia serena e cismadora, olhos recolhidos, quase mortos, onde às vezes brilhava, como por encanto, um reflexo de alegria, olhos contemplativos, olhos ideais... Naquele momento a esposa de Evaristo, dominada pela palavra do banqueiro, via diante dela, como um estranho fantasma, a Corte Imperial, desde o monarca, com a sua longa barba branca de rei Davi, carregando o pesado manto de arminho e ouro, rodeado de áulicos e cortesãos sob uma grande cúpula majestosa, até o último lacaio dando-se ares de fidalgo, indo e vindo pelos corredores na sua libré carnavalesca de súdito fiel e servo obediente.

O assunto do visconde era a doença do real personagem, a grave moléstia do imperador. Todos o ouviam em grande silêncio e com grande respeito, por se tratar ainda uma vez do homem para quem o Brasil inteiro voltava-se naquele momento da vida nacional. A aristocracia brasileira, já ouvindo falar em república, e zeloza das suas posições e dos seus créditos, temia um desastre político, um assalto ao Poder, naquela hora de tristeza, quando na verdade que os médicos tinham aconselhado ao Chefe da nação um passeio à Europa, uma vilegiatura em Spa ou em Cannes...

— E a imperatriz, como deixou o senhor a imperatriz? — perguntou a mulher do desembargador, inclinando-se para o visconde.

— A imperatriz, minha senhora, é aquele mesmo coração, aquela mesma brandura: diz que há de morrer onde morrer o velho... Uma santa!

— Mas, quando pretende embarcar a família imperial? — interrogou Furtado.

— Por enquanto nada está resolvido. Sua Majestade não quer precipitar uma viagem dolorosa, tem saudades do Brasil.

— Coitado!... — murmurou D. Branca, sem tirar os olhos do capitalista.

— E ninguém sabe, afinal, qual é a doença do imperador! — disse o velho Lousada.

— Não é coração? - atalhou a dama de honor.

O visconde, muito respeitosamente, pediu licença à nobre senhora para dizer que não, que o Sr. D. Pedro II estava com uma glicosúria...

— Glicosúria? Que é glicosúria?

— Diabetes...

— Creia o senhor que ainda não compreendi...

— Diabetes... glicosúria... — fez o visconde atrapalhado, esfregando-se os dedos.

— Enfraquecimento cerebral, minha mulher — explicou Lousada convictamente.

— Não é bem enfraquecimento cerebral; o enfraquecimento, segundo ouvi dizer, é um dos múltiplos sintomas da diabetes... — emendou o banqueiro. — A glicosúria é... é uma doença dos rins.

— Açúcar na urina, homem, creio que está muito bem dito açúcar na urina! — opinou o Dr. Condicional interrompendo as suas reflexões poéticas para emitir juízo científico.

— É... — confirmou friamente o visconde.

— Pois eu já ouvi dizer por um médico ilustre que Sua Majestade sofre de um esgotamento nervoso... — falou o secretário.

(continua...)

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