Por Adolfo Caminha (1894)
Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades. Tinha sessenta anos. Era o "cozinheiro da proa", sobre o seu corpo foi estendida a bandeira nacional brasileira como símbolo da pátria reconhecida.
Nesse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do Barroso desembarcou a fim de assistir à missa solene da Páscoa na catedral de S. Luís, o mais importante dos templos católicos da cidade, situado na Rua Chartres.
Bem que antiga, essa igreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o primeiro edifício católico erigido em Nova Orleans pelos capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luís em homenagem ao rei da França.
Mais tarde, em setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja população elevava-se a 200 almas, formidável ciclone, que arrasou todos os edifícios, causando uma mortandade incalculável. Narram os cronistas que foram arrojados à costa três navios que se achavam fundeados no porto. Em breve, porém, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruída a igreja, essa mesma onde ainda hoje ergue seus torreões vetustos na Rua Chartres.
Naquele ano o território de Nova Orleans foi dividido em três grandes distritos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelitas e dos jesuítas. De então em diante multiplicaram-se os edifícios religiosos, igrejas, palácios episcopais, conventos, etc.
O convento das Ursulinas data igualmente da fundação da cidade e é um estabelecimento católico à maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo nome.
É um dos últimos conventos que ainda existem nos Estados Unidos. Consta de três andares e ergue-se à margem do rio, para onde abre suas janelinhas através das quais se vê passar a sombra fantástica das religiosas.
CAPÍTULO X
Um belo povo, o de Nova Orleans — jovial, comunicativo hospitaleiro e sincero. A ele devemos os melhores dias dessa longa Viagem ao país sugestivo e excepcional dos ianques, universalmente querido e respeitado por sua grandeza industrial e por suas belas tradições de energia e patriotismo.
E entanto aproximava-se o dia da partida: íamos embora rumo de norte, levando conosco a imorredoura lembrança do Meschasebé, "le roi des fleuves", e das legendárias terras que Chateaubriand poetizara nas suas inimitáveis viagens. Restava-nos, porém, o consolo de que ainda iríamos à sonhada Nova Iorque dos trens aéreos e das empresas colossais.
Corações à larga, rapazes! Um homem é um homem!...
A saudade, porém, não é uma simples figura de retórica, pelo amor de Deus!
É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dor.
A saudade existe, é um fenômeno perfeitamente real e determinado na ordem dos fatos psicológicos. Não nos venham dizer outra cousa os senhores neologistas fin de siècle. Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade — uma comoção nervosa interessando o mais delicado e sensível do coração humano, uma dolência vaga, flutuante n'alma, intraduzível como um sonho nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...
Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte anos, seguese que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensível, uma massa inabalável?
Absolutamente não. A lágrima, expliquem-na como quiserem os doutores da ciência, há de existir enquanto palpitar em nós esse músculo que se chama coração, enquanto a humanidade sofrer e houver um motivo sentimental para comover os seres dotados de inteligência. É talvez uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoísmo neste século essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não muito longe, a raça humana se transforme numa como esfinge, sem afetividade possível, ou que o sistema nervoso passe a exercer funções negativas na fisiologia do porvir? Não o acreditamos.
A lágrima há de existir per ommia secula, e a saudade terá sempre a sua lágrima, como sentimento superior às nossas forças.
Chorar sobre o túmulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por uma veleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psicologia da lágrima. O que eu quero é confessar, embora disso me advenha o qualificativo de piegas, que não podíamos — eu e a maior parte dos meus colegas — pensar em deixar Nova Orleans sem um demorado frêmito de pálpebras e uma névoa úmida no olhar triste.
E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população daquela cidade.
Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luisianenses. Como última prova de verdadeira estima o Luisiana Jockey Club deu-nos um magnífico baile na véspera da partida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.