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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Não te importes minha tola. Ora! ora! ora!... Isso a gente faz ouvidos de mercador, e vai para adiante. A vida é esta, e tola é quem se ilude.

— Não, Lídia, as coisas não são como tu pensas. No Ceará basta um rapaz ir duas vezes à casa de uma moça para que se diga logo que o namoro está feio, que é um escândalo, e nós é que somos prejudicadas. “Ah! porque já não é mais moça, porque é uma sem-vergonha” é o quem dizem...

— Pois olha, esta aqui há-de namorar até não poder mais. Queres que te diga uma coisa? Isso de casamento é uma cantilena...

E, num assomo de despeito, a Campelinho lembrou mulheres casadas que tinham amantes e que viviam muito bem na sociedade; citou a mulher do Dr. Mendes, juiz municipal. Estava ali uma que fora encontrada aos beijos com o José Pereira, da Província, em pleno Passeio Público! Quem era que não sabia?

Ninguém. Entretanto freqüentava as melhores famílias da capital — era a Sra. D.

Amélia! Queria outro exemplo? E abaixando a voz:

— Aqui mesmo em casa o tens, minha tola. Ninguém ignora neste mundo que D. Terezinha é amigada com teu padrinho. E tudo mais é assim, querida Maria. A canalha fala de inveja, invejosos é o que não faltam nesta terra.

Maria prestava atenção, silenciosa.

— Então, disse ela por fim, achas que devo continuar o namoro?

— Que dúvida, mulher! Eu é porque já tenho o meu. Assim mesmo...

Maria sentiu uma pontinha de ciúme roçar-lhe o coração. Disfarçou com um risinho seco.

— Eu estive pensando, disse, caso o Zuza me pregue uma taboca...

— Nada mais simples: prega-lhe outra casando-te com o primeiro bilontra que aparecer. Amor com amor se paga...

— Não, falemos sério...

— Que queres tu que se diga? Eu cá não costumo enganar ninguém. Sou muito franca. — Pão, pão, queijo, queijo...

— Dão licença? disse uma voz fora, na rua.

Era D. Amélia, mulher do Dr. Mendes. Maria foi abrir a rótula.

— Oh! por ali?...

— É verdade, meninas, venho morta de calor. Uf! que solão, que solão! Lídia, muito expedita e pronta, ajudou a desatar o véu e a tirar as luvas.

Como estava a Teté? perguntou D. Amélia muito afogueada, tirando o chapéu defronte do espelho. D. Amanda ia bem? E sentando-se:

— Já sei que não foram hoje à Escola... Boa vida! Não há como ser moça. Pois, meninas, venho duma séca. Fui ali à casa da costureira experimentar o meu vestido de cetim...

— Isso que é boa vida, disse a Campelinho: passeios, vestidos...

Maria tinha ido chamar a madrinha: que era um pulo.

— Qual passeios! Quem tem filhos pode lá passear?

D. Terezinha não se fez esperar. Entrou sacudindo os quadris, bamboleandose toda.

— Ora viva! disse atirando-se nos braços de D. Amélia. Como vai, como tem passado? Que milagre!

Agora todas falavam a um tempo, rindo, gabando-se.

— Sabem quem esteve ontem conosco?... O Zuza. Diz que volta sábado de Baturité. Gabou muito a Maria: que é uma cearense distinta, muito prendada, chique a valer, um horror! Ao que parece temos casório...

— Qual casório! fez Maria com um rubor nas faces. Invenções...

— Não havia de ser contra a minha vontade, disse D. Terezinha. Seria até uma felicidade. Deus o permita...

Falaram de modas.

D. Terezinha alardeou o seu rico vestido de cetim, que a viúva Campelo achara de muito bom gosto.

D. Amélia queixou-se do marido: um homem sem gosto, um mosca-morta, muito desleixado, com venetas de doido. Ela até já se aborrecia, porque o Mendes tinha o mau costume de beber aguardente; às vezes chegava tropeçando, com a língua pegada, sem poder falar. Vestidos ela via-os de ano em ano. Um indiferente, o Mendes. Sofria de uma erisipela na perna direita que o proibia de trabalhar meses inteiros...

— Pois olha, disse D. Terezinha, o meu faz-me as vontades, mesmo porque eu não sou mulher de muitos me-deixes. Todos os meses é pra ali um vestido. Diabo é quem os poupa! Também, minha filha, dou-lhe toda liberdade, fora e dentro de casa. Felizmente não tenho queixa dele.

Lídia pediu a D. Amélia que tocasse alguma coisa, a Juanita, que era a valsa da moda.

A propósito D. Amélia perguntou se já tinham ido ao teatro. Que fossem, que fossem. O grupo lírico da Naguel estava fazendo sucesso. A Belle-Grandi era um mulherão capaz de arrebatar uma platéia inteira. Que modos, que requebros! Domingo ia a Juanita pela última vez em benefício da Aliverti. Que fossem. Era uma opereta interessantíssima, por sinal tinha sido representada cem vezes na Corte! A beneficiada ia fazer o papel de Juanita.

— Eu é para que tenho jeito, atalhou a Campelinho, é para o teatro. Deve ser uma vida tão cheia de sensações a das atrizes... Vestem-se de todas as formas, recebem presentes ricos, jóias, anéis de brihante... são aplaudidas e ainda por cima ganham dinheiro à ufa. Eu já disse à mamãe, mas ela não quer por coisa alguma, diz que é uma vida imoral... Tolice! Há tanta gente boa nos teatros... A última vez que fui ao circo chileno fiquei encantada pela Estrela do Mar!

(continua...)

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