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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Todo aquele mês passara o padre Antônio de Morais em projetos de reforma da paróquia, em assear o templo, em confessar beatas, examinar crianças ao catecismo, dizer missas e cantar ladainhas. A população estava muito satisfeita. Nunca vira um vigário assim tão sério e zeloso, tão ativo e pontual. Pela manhã a missa, rezada devagar, a durar vinte minutos pelo menos, macerando os joelhos do povo nos tijolos da capela-mor. Em seguida, a confissão longa, minuciosa, cheia de conselhos patemais e de repreensões bondosas. A Maria Miquelina fora confessarse, a mandado do professor, e voltara maravilhada. Ao meio-dia a aula dos pequenos; à noite a ladainha, puxada pelo vigário em pessoa, à luz duvidosa das lâmpadas de azeite de mamona...isto um mês a fio... uma delícia! no dizer da senhora D. Eulália. Beatas velhas e beatas novas bebiam os ares pelo padre vigário, rapagão de vinte e dois anos, simpático, bem apessoado e de mais a mais um santo! Sempre sério, bondoso, paternal, caminhando de olhos pregados no chão, falando baixinho, minha filha, minha irmã, em voz suave e melíflua, que fazia correr um calafrio pela espinha dorsal das devotas, acostumadas às graçolas chocarreiras do defunto padre José. D. Cirila, mulher do capitão Fonseca, D. Dinildes, irmã do MapaMúndi, e a famosa D. Prudência, viúva do Joaquim Feliciano, não se fartavam de gabá-lo, admirando-lhe a barba bem escanhoada, o cabelo luzidio e penteado, a batina nova, a alva camisa engomada, os sapatos envernizados a capricho, o todo de petimetre de sotaina, que contrastava de modo frisante com as sobrecasacas domingueiras compridas e lustrosas, e com as largas calças brancas e os sapatos grossos, de couro cru, dos rapazes mais atirados da terra. E o mulherio todo as secundava nos elogios ao padreco. Até a Maria Miquelina, a negrada! tinha as suas simpatias pelo troca-tintas do vigário!

Tanto entusiasmo das mulheres teria certamente despertado o ciúme e o ódio dos homens, se, pelo seu procedimento - irrepreensível - não lhes tivesse padre Antônio captado a benevolência.

Nenhuma fraqueza lhe conheciam. Essa virtude inexpugnável causava pasmo ao Chico Fidêncio, desnorteava-o. Na sua opinião todos os padres eram mais ou menos como os cardeais do quadro de moldura dourada, sotoposta ao retrato do Ganganelli brasileiro: uns pândegos que bebiam champanhe abraçando irmãs de caridade. Entretanto com padre Antônio de Morais não se dava isso. A Luísa Madeirense perdera completamente os seus requebros, as suas provocações impudentes. Nem sequer lhe conseguira apanhar a freguesia do engomado, que fora dada à mulher do coletor, senhora quarentona e respeitável. D. Prudência debalde gastara dúzias de ovos em compoteiras de cocada amarela, com que o Macário sacristão apanhava azias desesperadas. S. Rev.ma lhas agradecia pelo portador, mas não a visitava. Todo trabalho entregue aos trabalhos do culto, parecia superior às fragilidades humanas. Andava atarefado, embebido na preocupação de regularizar o serviço da Igreja. Parecia querer ser um pároco modelo, solícito, atento e dedicado.

Na sua casinha solitária, acompanhado pelo Macário sacristão que lhe governava a casa, e servido por um preto velho que trouxera do Pará, levava a vida austera dum padre de S. Sulpício. Jamais nenhum dos sujeitos que viviam em Silves da espionagem da vida alheia, nem o Maneco Furtado, nem o Cazuza dos Tamarindos, pudera, naquele mês inteiro, divisar entre os umbrais da porta da entrada, ou na abertura da cerca do quintal, um vulto suspeito de mulher. Era simplesmente admirável.

O Macário sacristão, empanzinado de gulodices, palitando os dentes, satisfeito do mundo, clamava na vila que nunca vira um homem assim, que um padre daquele feitio era uma coisa espantosa. E batia-se, em discussões calorosas, com os maliciosos que, mais por pirraça ao sacrista do que por convicção, notavam a facilidade que havia em passar, sem ser visto da casa do vigário para o quintal da Luísa Madeirense. O Macário punha a mão ao fogo pela castidade de S. Rev. ma. É verdade que havia tentações... a Madeirense fazia o diabo! E uma certa viuvinha então? Era querer e estava feito, mas não! S. Rev. ma não queria. Macário desafiava a toda a gente a que o pilhasse em falso. Ele próprio, Francisco Fidêncio Nunes, o terrível inimigo dos padres, que escrevia correspondências para o Democrata, de Manaus, em que vazava a bílis revolucionária e ateísta, para esfregar aquela súcia, era obrigado a confessar que ou padre Antônio era um santo ou um verdadeiro ministro do altar!

O professor ergueu-se desanimado, deixando cair a caneta que tinha entre os dedos. Foi à varanda, onde a Maria Miquelina, sentada a um canto, tendo diante de si uma grande almofada branca, fazia rendas de bico, silenciosa e trombuda.

— Então o tal padreco é mesmo um Santantoninho, Maria Miquelina!

A mulata não respondeu.

— Tens as bananas atravessadas na garganta, rapariga? Olha que se me móis, não janto.

(continua...)

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